• Colaboradoras da Liga

Cação é tubarão!

Por Mariana Almeida, Bianca Rangel e Nathalie Gil


A carne de cação, nome popular dado a qualquer espécie de tubarão capturada pela pesca, sempre foi conhecida por ser mais barata e “sem espinha”, teoricamente melhor para alimentação de crianças.


A partir da iniciativa da Sea Shepherd, Santos foi a primeira cidade a banir a carne de cação da merenda escolar da rede municipal de ensino, poupando cerca de 440 mil kg de carne que seriam consumidas.


Uma importante conquista não só por ser uma carne, que possui alto nível de mercúrio, mas divulgar essa informação para pessoas que não tiveram acesso a esse conhecimento, protegendo a saúde das crianças a longo prazo. A preocupação do impacto ambiental na gestão da alimentação das crianças serve de inspiração para outras cidades e municípios pelo Brasil.


Tubarões e as raias: dando voz aos animais mais incompreendidos e ameaçados do planeta


Trabalhar para a conservação de animais selvagens nunca vai ser uma tarefa fácil, menos ainda com animais marinhos. A pouca conexão das pessoas com o mar dificulta muito nos enxergarmos como parte do problema e parte da solução. Mas a conservação de tubarões e raias é uma missão ainda mais árdua!


Apesar de majestosos e de sua biologia incomparável, os tubarões e as raias estão sendo dizimados pela pesca, particularmente para abastecer o mercado asiático de barbatanas e o mercado global da carne e subprodutos. Estas espécies são consideradas como recurso pesqueiro, enquanto deveriam ser consideradas como fauna essencial para o equilíbrio do oceano. Viram notícias rapidamente quando ferem um ser humano, mas ficam de fora das manchetes diariamente enquanto milhares são mortos pelo mundo afora.


São vistos por muitos como monstros, como vilões de histórias mal contadas, quando a verdade é que são apenas predadores muito bem adaptados e sucedidos na história evolutiva. E justamente por “carregarem esse fardo” de serem predadores não carismáticos, são incompreendidos pela maioria das pessoas e ignorados por muitas instituições governamentais e não-governamentais.


Mas pense por um minuto: quando ouvimos histórias de uma pessoa sendo picada por uma cobra na floresta, por exemplo, compreendemos que ela está em um lugar selvagem e quem escolheu estar ali sabe as consequências disso. Mas não vemos desta maneira quando uma pessoa é atacada por um tubarão no oceano: os vemos como intrusos, falamos de matanças e mitigações que ‘esterilizam’ a área da praia deste ‘perigo’. O ambiente da praia não é nosso, e sim, deles. Limpar a praia desses ‘perigos’ é destruir um ecossistema, exatamente como é feito o desmatamento na Amazônia ou navios de arrasto que dizimam o leito marinho.


A campanha “CAÇÃO É TUBARÃO”, da Sea Shepherd Brasil nasceu em julho de 2021 na esperança de trazer à tona o problema que ainda é pouco compreendido no Brasil: o comércio de carne de tubarões e raias. A peça-chave nesse quebra-cabeça é que somos o maior consumidor e importador de carne de tubarão do mundo! Atrelado a isso, exportamos uma quantidade enorme de raias e de barbatanas de tubarões.


Tubarões e raias são livremente comercializados no Brasil como “cação”, já que colocar “tubarão” nas plaquinhas dos mercados e peixarias possivelmente inibiria o consumidor. A impressão negativa aqui trabalharia a favor deles, mas não os damos esta chance. Em uma pesquisa realizada pela empresa Blend, comissionada pela Sea Shepherd Brasil, em agosto de 2021, revelou que 69% dos brasileiros afirmam não saber que cação é tubarão! Um dado muito grave e preocupante para a conservação desses animais. Primeiro, porque a carne de cação é muito atrativa para os brasileiros, pois é vendida com preços baixos quando comparados a outros peixes. Segundo, porque é uma carne branca e sem espinhos, tornando-a ainda mais atrativa, principalmente para crianças, o que faz ser uma presença comum nas compras em escala de merenda escolar nas escolas públicas do país.


Atingir as pessoas com argumentos ambientalistas, informando o status de conservação preocupante de muitas espécies aparentemente não é a melhor estratégia. Mas fato é que, por serem animais predadores, os tubarões e raias acumulam grandes quantidades de contaminantes tóxicos, como mercúrio e arsênio, e isso nos permite alcançar as pessoas com argumentos relacionados a sua saúde. Se por anos não convencemos pela saúde do planeta, a partir desta campanha estamos tentando conscientizar pela nossa própria saúde. Nós somos seres humanos e, por mais ‘evoluídos’, acabamos ainda agindo pelo instinto da nossa própria sobrevivência.


Desde o lançamento da campanha já acumulamos grandes conquistas. A primeira delas, logo no início da campanha, foi a publicação de uma carta na revista Science, o que trouxe o assunto para os jornais e para o grande público. Com poucos meses de campanha, conseguimos o apoio financeiro do Instituto Linha D’Água para realização da pesquisa científica da identificação genética das espécies e concentração de metais tóxicos na carne de cação, importada para o Brasil. Os resultados gerados nesta pesquisa serão usados como evidências adicionais para cobrarmos para que algumas medidas sejam tomadas, como a obrigatoriedade da rotulagem correta ao nível de espécie e a proibição da importação de espécies ameaçadas de extinção.


Usando principalmente os argumentos relacionados à saúde, conseguimos junto com a Sociedade Brasileira para o Estudo de Elasmobrânquios (SBEEL), foi barrar a compra de 650 toneladas de cação destinada à merenda escolar na cidade de São Paulo, o que estimulou a prefeitura de Santos a ser a primeira cidade brasileira a banir a carne de cação da merenda escolar.


O que isso tudo representa para a conservação dos tubarões e raias? Mudanças nos hábitos do brasileiro com relação ao consumo de cação pode alterar o trajeto em curso que estamos, o da extinção de diversas espécies causada pela pesca.


Sabemos através da nossa pesquisa que ao saberem que cação é tubarão (e pode ser raia), muitos dos consumidores irão optar por não consumir esses animais. A melhor maneira de conservar estes animais não é indo para a água e parar os pescadores, é simplesmente educar as pessoas sobre o que estão comendo.


Por fim, pode parecer que a ciência de tubarões e raias é realizada majoritariamente por homens, mas isso não é verdade. Somos um grupo grande de cientistas mulheres. Esta campanha da Sea Shepherd é idealizada e liderada por uma cientista mulher, administrada por mulheres e tem em seu time de cientistas, mulheres! Finalizamos aqui com toda nossa admiração e agradecimento a todas envolvidas no projeto!


Sobre as autoras:


Mariana Almeida é

Bióloga Marinha

e especialista de costeiro,

Coordenadora de Ciências

do Seashepherd Brasil.





Bianca Rangel é Bióloga,

apaixonada pelo oceano,

mas principalmente pelos

tubarões e as raias.

Cientista da Sea Shepherd Brasil

e Doutoranda no Instituto

de Biociências da USP.



Nathalie Gil é Diretora Executiva da Sea Shepherd no Brasil, cientista social graduada e pós-graduada pela ESPM e Open University UK, que utiliza sua expertise em entender humanos para convencê-los da urgência de compreender e proteger o oceano.



Imagem de capa: Oleksandr Sushko no Unsplash

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