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Você conhece sua pegada ecológica?

Por:

Gabriella Rocha Pegorin

Nutricionista CRN-3 58758

Mestre em Ciências


Você já ouviu falar no “dia da sobrecarga da terra”? É uma medida que relaciona dois conceitos que serão apresentados neste texto. Basicamente, é o dia do ano em que passamos a utilizar mais recursos naturais do que a Terra tem capacidade de produzir, além da sobrecapacidade em absorver nossas emissões de gases poluentes durante este ano.

Essa medida não é exata e com o passar do tempo e do desenvolvimento das projeções da Global Footprint Network, responsável por indicar essa data anualmente, haverão mudanças das projeções e nos modelos científicos para assegurar que essa data possa se aproximar da realidade.


O que é a pegada ecológica?

A Pegada Ecológica, denominada originalmente pela Global Footprint Network de “Ecological Footprint©”, mensura a velocidade que consumimos recursos naturais e geramos resíduos e faz um balanço com a biocapacidade da Terra em absorver esses resíduos e gerar mais recursos. As medidas são expressas em hectares.

A Pegada Ecológica é responsável por medir o uso de superfícies produtivas, sejam elas terras agrícolas, pastagens destinadas à pecuária, zonas de pesca, terrenos urbanizados, áreas florestais e a demanda de carbono em áreas terrestres.

Do outro lado, há a biocapacidade - de municípios, estados e países - que representa a produtividade de exploração dos ativos ecológicos (terras agrícolas, pastagens destinadas à pecuária, zonas de pesca, terrenos urbanizados e áreas florestais). Quando essas áreas não estão sendo exploradas, servem para absorção de carbono proveniente da queima de combustíveis fósseis.

Quando uma região utiliza mais recursos naturais do que é capaz de produzir, ou seja, “estoura” sua biocapacidade, acontece um “déficit ecológico”. Uma região é capaz de entrar em déficit ecológico liquidando e exportando seus ativos ecológicos provenientes da sobrepesca e desmatando para exploração de madeira, monocultura e pecuária, além da emissão de dióxido de carbono para a atmosfera.

O termo “Pegada Ecológica” foi concebido em 1990 pelos cientistas Mathis Wackernagel e William Rees, da Universidade da Colúmbia Britânica e ampliou o movimento com o termo “Pegada de carbono”, utilizado por diversos cientistas ambientais.

É possível acompanhar a biocapacidade e pegada ecológica da nossa região por meio da plataforma de dados abertos com as “Contas nacionais de pegada e biocapacidade". O Brasil, com todas as dificuldades, ainda está em “crédito”, ou seja, apresenta maior biocapacidade do que a pegada ecológica. O que pode ser justificado pela vasta biodiversidade e grande área. Mas isso não nos tira do estado de alerta.

Países como Estados Unidos, China, México e diversos países europeus como Alemanha, Itália e Espanha, por exemplo, encontram-se em déficit ecológico

Junto com a Universidade de York, a Global Footprint Network estabeleceu uma organização independente: Footprint Data Foundation (FoDaFo). O objetivo desta organização é administrar as Contas Nacionais de Pegada e Biocapacidade. A FoDaFo possui e dirige de forma independente a produção das Contas, com o objetivo de proporcionar confiabilidade através de seu apoio acadêmico, de forma que possam informar a tomada de decisões públicas e privadas com imparcialidade. A FoDaFo também tem a ambição de construir uma coligação de países, apoiada por uma rigorosa rede acadêmica global ampliando o trabalho.


É possível medir a pegada ecológica de uma pessoa

Infelizmente o banco de dados está disponível apenas em língua inglesa. Caso você tenha sentido uma enorme curiosidade e navegado pelo banco de dados, percebeu que no gráfico há uma medida de “Pegada ecológica por pessoa”, isso porque é possível medir a nossa própria pegada ecológica.

A pergunta é: quantos planetas Terra seriam necessários para que pessoas com o meu estilo de vida permanecessem aqui? Descubra o seu próprio “dia de sobrecarga da terra”.

Em outras palavras, num período de um ano inteiro, em qual mês você esgotaria os recursos naturais oferecidos pela Terra sem que ela pudesse ser capaz de absorver os resíduos e gerar mais recursos?

Te convido a fazer o cálculo através deste link, felizmente para a calculadora há menos barreiras de idioma e está disponível em Português (de Portugal), Inglês, Espanhol, Francês, Italiano, Mandarim e Alemão.

Pessoalmente, tenho críticas sobre as possibilidades de resposta às questões da calculadora. Infelizmente é muito difícil para a maioria das pessoas quantificar exatamente a distância da produção dos alimentos que consumimos diariamente, bem como o percentual da presença de alimentos industrializados na dieta.

Há também a utilização de conceitos que ainda não são bem difundidos e nem mesmo definidos, como “alimento produzido localmente”. Outra dificuldade comum é o alimento industrializado que nem sempre é ultraprocessado. Teoricamente, todo alimento higienizado e embalado passou por um processo industrial ou comercial, mas nem todos eles são ultraprocessados. O iogurte natural com leite e fermento lácteo é um alimento industrializado, porém minimamente processado, por exemplo.

Contudo, a calculadora da Pegada Ecológica traz reflexões pessoais importantes sobre nosso estilo de vida e através do resultado podemos tomar decisões sobre o que é possível modificar ou não.

O cálculo será dividido em três partes:

  • Alimentação: identificando a presença de alimento de origem animal, embalado, produzido em grande escala e em grandes latifúndios.

  • Habitação: qual tipo de construção da sua casa, quantas pessoas coabitam, há eficiência de energia ou não, qual é o tamanho da sua produção de lixo baseado em seu padrão de consumo;

  • Mobilidade: quantos km você consegue percorrer em veículo próprio, quantas horas você passa em viagens de avião anualmente e qual é a sua participação na utilização de transporte público.

Eu, Gabriella, acabaria com os recursos renováveis do planeta no dia 29 de Julho e seriam necessárias 1,7 Terras para suprir as demandas de pessoas com o meu estilo de vida. Todos os anos me proponho a operar pequenas mudanças e recalcular a minha Pegada Ecológica. Tendo em mente, é claro, que mudanças coletivas, bem como o desenvolvimento de políticas públicas são tão importantes (ou até mais) para reduzir os impactos de um sistema destruidor baseado na lógica do consumo e da lucratividade.

Como melhorar meus hábitos

O primeiro passo é se informar!

A partir da informação você pode definir metas baseadas nos seus facilitadores. Vou usar um exemplo pessoal - sou vegetariana há 7 anos, evito ao máximo consumir alimentos ultraprocessados, considerando que meu trabalho é quase 100% remoto e posso levantar para preparar minhas refeições sempre que possível. Mas comprar um terreno e construir uma casa de adobe ou taipa de mão com a terra local seria impossível no momento, então foco em operar as mudanças onde é possível - alimentação e mobilidade! Sempre que possível faço meu trajeto andando, felizmente, isso é possível porque moro no centro da cidade.

  • Você pode definir seus facilitadores pensando no que seria possível - você mora perto do trabalho e pode sair mais cedo de casa para fazer seu trajeto caminhando ou de bicicleta ao invés de utilizar seu veículo próprio como carro ou moto? Perfeito, pode começar por aí.

  • Você pode investir em eficiência de energia para sua casa? Então comece por aí.

  • Você pode adquirir um veículo com mais eficiência e autonomia ou mesmo utilizar somente transporte público, bicicleta e caminhar? Ótimo ponto de partida.

  • Você mora perto de comunidades que investem em agroecologia e pode consumir somente alimentos in natura produzidos localmente? Perfeito, comece por aí.

Além de operar pequenas mudanças no seu cotidiano, você pode apoiar projetos de lei que buscam minimizar os impactos das emissões de gases de efeito estufa, escolher seus candidatos pelos projetos ambientais e cobrá-los no futuro. Isso ajuda a tirar o peso da falsa ideia de sermos os únicos responsáveis (aqui eu me refiro em escala individual) por uma destruição em massa que grandes empresas contribuem violentamente em nome da lucratividade.


Através da alimentação

Você pode buscar feiras de agroecologia próximas da sua região, consumir do produtor local ou mesmo frequentar as feiras semanais do seu bairro para reduzir o consumo alimentar proveniente de grandes latifúndios.

Além disso, o consumo de alimentos de origem animal e ultraprocessados contribuem com a emissão de gases de efeito estufa, com a utilização de recursos naturais como a água e a terra - gerando desmatamento, além dos impactos da sobrepesca. Você pode começar aderindo à campanha global Segunda Sem Carne.


Segunda sem carne:

De acordo com a campanha, deixamos de emitir 11kg de CO2 e 60L de água quando não consumimos alimentos de origem animal por um único dia. O cálculo considera 38g de ovos, 290g de carnes e 450ml de leite.

Mas como seria isso na prática?

Vou dar um exemplo de cardápio considerando um dia sem alimentos de origem animal, levando em conta a cultura alimentar da população brasileira.


Café da manhã:

  • Café (com bebida vegetal caseira para quem estiver no pique de prepará-la)

  • Pão na chapa com azeite e sal (fica parecido com a manteiga, se esquecer da pitadinha de sal já não fica tão legal)

  • Frutas da região e/ou estação (adicionando aveia e sementes como semente de abóbora, chia, linhaça, etc. Também é possível acrescentar uma quantidade pequena de proteína, fibra e ácidos graxos essenciais).

A meu ver, ainda faltaria uma fonte de proteína para te fornecer mais saciedade ao longo do dia, você pode fazer uma pastinha de tofu ou de grão-de-bico (essa última é conhecida popularmente como homus) para passar no pão!


Almoço/Jantar:

Sem qualquer sombra de dúvida: arroz e feijão! Mas você pode variar essa combinação e enriquecer com outros grupos alimentares.

No texto anterior sobre o consumo de carne de cação, falei brevemente sobre proteínas vegetais e como a união entre cereais e leguminosas forma uma proteína completa, uma vez que os aminoácidos limitantes em cada um dos grupos se encontram nessa belíssima combinação.

  • Cereal ou pseudo-cereal (arroz, milho, aveia, quinoa, amaranto, cevada, trigo - pode ser trigo para quibe, flocos de milho - pode usar o cuscuz nordestino);

  • Leguminosa (feijão branco, feijão preto, feijão carioca, feijão fradinho, lentilha, grão-de-bico, soja, etc);

  • Hortaliças verdes-escuras e alaranjadas de modo geral;

Você pode fazer um mix com mais de um tipo de cereal e leguminosa, se preferir, pode fazer algo que te dê a impressão de um prato proteico, por exemplo, um hambúrguer de lentilha para comer com arroz, feijão, couve-manteiga refogada e purê de abóbora. Ficou mais fácil de visualizar assim?

É importante deixar as leguminosas de molho por 12-24h antes de cozinhar e desprezar completamente a água de remolho, a função dessa técnica é diminuir antinutrientes chamados fitatos que prejudicam a absorção de minerais como o ferro, por exemplo.


Lanches intermediários:

Aqui podem entrar frutas misturadas com cereais e/ou sementes, por exemplo: banana amassada com aveia ou granola artesanal/caseira. Alguma bebida vegetal (Aveia, soja ou castanhas) batida com fruta para dar uma ideia de “vitamina” de vó, sabe? Use a criatividade substituindo os alimentos de origem animal e sempre trazendo alimentos in natura e minimamente processados para compor a base da preparação.


Mensagem final

Reduzir o consumo de alimentos de origem animal e fazer da base da nossa alimentação os alimentos in natura e minimamente processados produzidos localmente faz parte de um estilo de vida mais sustentável para o Planeta.

Contudo, o fardo de uma falsa ideia de responsabilidade individual pelas catástrofes ambientais não deveria recair sobre nós, considerando a importância da ruptura do sistema vigente, baseado na lógica do consumo e lucratividade de grandes empresas que exploram de forma predatória os nossos biomas terrestres e ecossistemas aquáticos.

Também é importante unir forças e cobrar o desenvolvimento de políticas públicas que permitam o acesso de todos e todas aos alimentos saudáveis, livres de defensivos agrícolas e produzidos localmente.


Referências:

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