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14 de julho, Dia Mundial dos Tubarões e Raias

Por Mariana Campagnoli


Mais ou menos um mês antes do Dia Mundial dos Tubarões e Raias, comemorado em 14 de julho, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) conduzia a maior apreensão de nadadeiras de tubarões da história. Foram 28,7 toneladas de nadadeiras de tubarões apreendidas em Santa Catarina, com uma estimativa de quase 10 mil tubarões mortos. Isso significa que 10 mil tubarões foram pescados, tiveram suas nadadeiras cortadas, e depois seus corpos foram descartados no mar, em uma prática denominada finning. E “para que se usam todas essas nadadeiras?”, você deve estar se perguntando. Basicamente, as nadadeiras são usadas para preparar uma sopa de “barbatanas” de tubarão, um prato servido em alguns países asiáticos como China, Japão, Hong Kong e Vietnã, por aqueles que querem exibir seu alto status social. A sopa é consumida sob a justificativa de retardar o envelhecimento, melhorar o apetite, auxiliar na memória e estimular o desejo sexual.


Apesar da prática de finning ser proibida no Brasil desde 2012, essa não é a primeira vez em que são apreendidas cargas de pesca ilegal de tubarões por aqui. Nos últimos anos, o IBAMA apreendeu dezenas de toneladas de nadadeiras de tubarão durante operações realizadas no litoral brasileiro. Além disso, o Brasil é um dos maiores consumidores de carne de tubarão no mundo! Você já deve ter ido ao supermercado e se deparado com pacotes de carne de “cação”. O cação nada mais é do que um nome utilizado para se referir à carne de diversas espécies de tubarão. Ou seja, quem compra carne de cação não sabe qual espécie de tubarão está consumindo, e pode estar incentivando a pesca ilegal de espécies desses animais. Como resultado de toda essa pesca, um terço dos tubarões e raias do mundo está ameaçado de extinção!


Raias e tubarões compõem alguns dos predadores de topo da cadeia alimentar do oceano, e sua extinção pode afetar o delicado equilíbrio dos ecossistemas marinhos. Isso porque essas espécies têm um papel no controle das populações de espécies que estão um nível abaixo na cadeia alimentar. A extinção das espécies de tubarões e raias pode levar a um aumento considerável nas populações de peixes grandes, que se alimentam de peixes herbívoros, por exemplo. A partir daí, já podemos ter uma ideia do que acontece, com o efeito cascata: um crescimento exponencial de macroalgas, devido aos declínios populacionais de seus predadores. Após certo tempo, o aumento populacional das algas pode chegar a afetar as populações de corais, seus competidores, alterando o ecossistema para outro, onde há predominância de algas e pouca diversidade.


O Brasil vem se engajando em ações para mitigar os impactos da pesca sobre as populações de tubarões e raias há algum tempo. Em 2014, iniciou-se o I Ciclo do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Tubarões e Raias Marinhos Ameaçados de Extinção (ou PAN tubarões), coordenado pelo Cepsul do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e encerrado em 2019. O PAN tubarões contou com a participação de vários pesquisadores brasileiros de várias regiões do país, envolvidos no estudo de tubarões e raias. Em 2017, o Brasil tornou-se signatário do Memorando de Entendimento sobre a Conservação de Tubarões Migratórios (Sharks MoU), na 12ª Conferência das Partes (COP 12) da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres. No final de 2022, o estado do Paraná sancionou uma lei de proteção aos tubarões e raias, que obriga os supermercados, peixarias, restaurantes e estabelecimentos comerciais a fornecer informações sobre a identificação das espécies de tubarão e raia comercializadas. Este ano, também temos uma conquista a ser comemorada com a elaboração do livro Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Tubarões e Raias Marinhos Ameaçados de Extinção, um produto do I Ciclo do PAN tubarões. O plano reúne informações sobre a biologia desses animais, assim como sua diversidade, e um detalhamento sobre as ações a serem desenvolvidas para mitigar os impactos da pesca ilegal sobre as 53 espécies de elasmobrânquios (o grupo de peixes cartilaginosos que compreende os tubarões e raias) ameaçados de extinção no Brasil.


As propostas do plano sugerem ações mais diretas e de curto prazo, como criação e ampliação de áreas marinhas protegidas, assim como sua implementação em ambientes críticos ao ciclo de vida dos elasmobrânquios marinhos ameaçados de extinção no Brasil; a redução da captura incidental e mortalidade; e aprimoramento dos processos de monitoramento, controle e vigilância da captura destas espécies. Medidas de longo prazo também são propostas e incluem, principalmente, a conscientização da população sobre as espécies de tubarões e raias em extinção no Brasil, o ambiente em que vivem, os processos ecológicos que integram e a sensibilização acerca da importância de sua conservação para a integridade dos ecossistemas marinhos. Segundo os elaboradores do plano, a parte da conscientização da população foi a mais bem-sucedida durante o primeiro ciclo. No entanto, a parte relacionada à gestão pesqueira é um pouco mais difícil de ser implementada, já que falta governança aos pesquisadores.


Esperamos que o novo governo volte a dar a atenção necessária a ações voltadas à preservação do meio ambiente, e que essas ações sejam implementadas o quanto antes! Enquanto essas iniciativas são postas em prática, você também pode ajudar! Confira como:

  1. Não consumindo nenhuma parte do corpo de tubarões, evitando consumir produtos que dizem conter carne de “cação”.

  2. Reduzindo o uso de plásticos. Afinal, esse é um problema que não afeta só os tubarões, que podem confundir lixo com comida, mas também todo o ecossistema marinho.

  3. Apoiando organizações não-governamentais ou instituições envolvidas na proteção dos tubarões e raias. Aqui reunimos algumas páginas de instituições, detalhando como se pode ajudar, seja atuando como voluntário ou fazendo doações:

4. Informando-se e educando conhecidos e familiares sobre os problemas associados ao consumo de carne de “cação”.


Sobre a autora:

Mariana Campagnoli é bióloga, mestre e doutoranda em Ecologia e Recursos Naturais, e colaboradora de conteúdo para a da Liga das Mulheres pelo Oceano.







Referências:

Foto de capa: David Clode, no Unsplash

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