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Um Observatório para o Mangue e seus Maretórios: Gerando dados para efetivar soluções

A manchete de um dos principais jornais do Brasil anuncia: “Os benefícios econômicos dos manguezais ao Brasil podem chegar a US$ 5 bilhões”. O valor que, na verdade, pode ser inestimável, vem de serviços ecossistêmicos como a absorção e fixação de CO2, o abrigo para a reprodução de espécies de valor comercial, o turismo e a proteção costeira. O alto valor dos serviços ecossistêmicos, no entanto, não é suficiente para proteger os mangues de ameaças como a especulação imobiliária, o turismo predatório e o avanço de fazendas de camarão. Estima-se que 25% dos mangues do Brasil foram perdidos e que o desmatamento destas florestas pode chegar a 40% nas regiões Nordeste e Sudeste².


No próximo dia 26 será celebrado o Dia Mundial de Proteção aos Mangues e, apesar dos dados serem preocupantes, há quem trabalhe para frear estes números. O projeto “O Observatório do Mangue e seus Maretórios”, coordenado pela pesquisadora Indira Angela Luza Eyzaguirre e endossado pela Década do Oceano, por exemplo, visa formar um banco de dados sobre os mangues do Brasil. Indira é Engenheira Ambiental e nasceu no Peru, veio ao Brasil em 2015 fazer sua pós-graduação e, desde então, trabalha nos mangues da Amazônia. A pesquisadora  conta que a ideia do Observatório do Mangue e seus Maretórios surgiu da ausência de base de dados sobre os manguezais. 


Falando na Amazônia, é justamente no Bioma Amazônico que se concentra 80% (aproximadamente 11.200 km²) das florestas de mangue do Brasil e onde está a maior faixa contínua de manguezal do mundo, são cerca de 7.500 km. Segundo a pesquisadora, esse dado só é possível graças à presença das Reservas Extrativistas (RESEX), tipo de unidade de conservação que permite o uso sustentável dos recursos, como o pescado, sem a degradação do ambiente. Conhecer esses maretórios e como o uso sustentável deles pode ajudar no desenvolvimento econômico e na sua conservação é, portanto, fundamental.


Pesquisadora Indira no mangue. Imagem cedida por: Indira



No Brasil, podemos dizer que a história científica dos manguezais é feminina: foi através da ciência de Marta Vannucci (1921-2021) e Yara Schaeffer-Novelli que o termo “Mangue” e a importância destes ecossistemas ficaram conhecidos. Atualmente há diversas pesquisas sobre o tema no país, no entanto há a ausência de uma base de dados que reúna essas informações e principalmente, que junte o saber e a cultura popular acerca do mangue ao conhecimento científico. O Observatório do Mangue é um projeto recente, aprovado pelo CNPq no ano passado, que  visa o fortalecimento da governança ambiental, se tornando fonte de dados para estabelecimento de políticas públicas para a conservação dos manguezais e seus maretórios no Brasil.


A base de dados está sendo criada através da Ciência Cidadã de base comunitária, permitindo que o mesmo funcione como um sistema de monitoramento. Segundo a pesquisadora, jovens das próprias comunidades são envolvidos através de bolsas de pesquisas júnior formando um grupo de “Pesquisadores do Mangue”, que devem fazer o levantamento destes dados com o auxílio de pesquisadores mais experientes. Os jovens também estão sendo treinados para produzir reportagens sobre os dados que estão levantando. Indira explica que o grupo de “Repórteres do Mangue” visa garantir que as informações possam ser acessíveis além do meio acadêmico, sendo essa uma forma mais efetiva de se comunicar com a sociedade e tomadores de decisão. 


Jovens Pesquisadores do Mangue. Imagem cedida por Indira.


Além dos jovens, um outro grupo me gerou curiosidade no projeto pois, se o conhecimento científico dos mangues no Brasil é feminino, podemos dizer que o conhecimento tradicional também é. É no mangue que mulheres marisqueiras buscam o alimento e o complemento da renda para suas famílias. Indira, no entanto, relata que essas mulheres que habitam os territórios à beira do mangue e do mar na Amazônia e que tem o pescado como principal fonte de sustento de suas famílias, não se reconhecem como pescadoras. Historicamente, em comunidades pesqueiras do Brasil, o papel de ir ao mar pescar é dos homens, ficando as mulheres responsáveis pelo processamento do pescado trazido por eles.  


A engenheira ambiental explica que reconhecer-se e ser reconhecida como pescadora é fundamental para a garantia de direitos à essas mulheres. Por exemplo, segundo a Lei nº 11.718, de 2008, mulheres pescadoras que tenham comprovado mais de 15 anos na atividade, podem se aposentar aos 55 anos. Nesse sentido, mais do que dados ecológicos, como identificação e abundância de espécies, o Observatório dos Mangues e seus Maretórios tem como objetivo coletar dados das comunidades.


Entender quem são as pessoas que habitam estes maretórios, quais seus costumes e quais suas necessidades permitirá que pontes sejam construídas e políticas públicas específicas sejam criadas. Uma frente de trabalho possível para o empoderamento dessas mulheres, por exemplo, é o envolvimento em atividades psicoterapêuticas. Essas atividades devem fortalecer sua autoestima e construir nessas mulheres o sentimento de pertencimento e importância dentro do desenvolvimento socioeconômico de suas comunidades. Para que isso seja levado à comunidade, no entanto, é preciso conhecer e reconhecer o problema.


“Se a gente não tem dados a gente não sabe que existe esse problema, se a gente não sabe que existe esse problema a gente não pode pensar, definir e efetivar  políticas públicas”


 O “Observatório do Mangue e seus Maretórios” é um projeto novo e que merecerá atenção, pois desde já traz consigo uma missão transformadora: o uso da ciência cidadã de base comunitária para a construção de um banco de dados que permitirá reunir o conhecimento sobre os mangues do Brasil. Utilizar esses dados para atender as comunidades dos maretórios, em especial mulheres e jovens, é também trabalhar pela conservação do mangue. Para saber mais, acompanhar e apoiar esse projeto, siga sua página no Instagram (@observatoriodomangue).


Referências | Para saber mais


Sobre a entrevistada

Indira Angela Luza Eyzaguirre é Engenheira ambiental e doutora em biologia ambiental. Analista de sustentabilidade e desenvolvedora de projetos de desenvolvimento sustentável com foco nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Atualmente coordenadora do projeto Observatório do Mangue e seus Maretórios. Ganhadora do prêmio Millenium Ocean Prize sobre o ODS14 em 2022.





Sobre a autora

Débora Camacho Luz é Bióloga, formada pela Universidade Federal de Rio Grande (FURG), membro da Liga das Mulheres Pelo Oceano e bolsista CNPq DTI na Rede Ressoa Oceano. A Ressoa Oceano é uma rede formada pela Liga das Mulheres Pelo Oceano, o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da UNICAMP (LabJor), a Cátedra da Unesco pela Sustentabilidade do Oceano e a Ilha do Conhecimento. Essa rede tem como objetivo promover a ciência e a cultura oceânica para além do litoral e centros de pesquisa, conectando cientistas e jornalistas para a abordagem do tema nos meios de comunicação e investindo em projetos e iniciativas de comunicação sobre o oceano.




Esse texto foi produzido em parceria com os projeto Rede Ressoa Oceano.

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