• Colaboradoras da Liga

Maré Vermelha: por que devemos nos preocupar?

Atualizado: 19 de abr.

Com Priscila Lange


No início de 2022, na cidade de Ubatuba (Litoral Norte Paulista), o mar foi pintado de vermelho. A CETESB (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) identificou o registro de uma grande proliferação de algas possivelmente tóxicas, da espécie Dinophysis acuminata. Por medidas de segurança, a Secretaria Municipal de Pesca e Agricultura suspendeu a extração de moluscos bivalves, incluindo mariscos, do meio natural ou de cultivo, bem como a sua comercialização. Trata-se do fenômeno conhecido como Maré Vermelha.


As Marés Vermelhas ocorrem quando a temperatura do oceano favorece o crescimento de determinadas espécies de algas e quando há excesso de nutrientes nas águas, como esgotos não tratados, poluição urbana, fertilizantes, maricultura intensiva, rejeitos no mar. Estes elementos, ricos em compostos de nitrogênio, carbono, ferro, fósforo, alteram a composição química do oceano, favorecendo a proliferação de algas e bactérias nocivas.


Mas por que a Maré Vermelha é preocupante? Quais as consequências e os impactos econômicos deste fenômeno?


Para entender mais sobre este tema, o Blog da Liga traz uma entrevista com a bióloga Priscila Kienteca Lange, Professora Visitante do Departamento de Meteorologia - IGEO/CCMN/UFRJ LASA - Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais, para nos contar o que falta conhecer sobre este fenômeno. Vem com a gente:

Foto: M.Godfrey (SERC)


[Liga] É correto afirmar: Maré Vermelha é um fenômeno natural que pode acontecer em qualquer mar ao redor do planeta, e quando acontece pode ser observado a olho nu, provocando um desequilíbrio ecológico na proliferação de algumas algas?


[Priscila Lange] Sim. O excesso de qualquer microalga na água causa sim um desequilíbrio ecológico. Elas se acumulam quando não são consumidas na mesma velocidade em que se reproduzem, e quando morrem são consumidas por bactérias decompositoras que respiram o oxigênio dissolvido na água, causando hipóxia (que pode asfixiar peixes e outros animais).


[L] Quais condições fazem as algas se proliferarem?

[PL] Depende da alga. Algas flageladas são beneficiadas pelo excesso de nutrientes como nitrogênio e fósforo, em relação a quantidade de silicato. Outras algas crescem quando a água superficial esquenta e a mistura na coluna de água é reduzida. Diatomáceas crescem quando há introdução de diferentes nutrientes em quantidades equilibradas. A quantidade e cor da luz na coluna de água também influencia as espécies de algas que são beneficiadas.

[L] O que as faz produzir toxinas?

[PL] Algumas algas produzem toxinas sempre, outras produzem só às vezes. A produção geralmente está ligada ao estresse fisiológico, mas pouco se sabe sobre os gatilhos para produção de toxinas.

[L] Como cessa a proliferação?

[PL] A proliferação cessa quando uma das duas coisas a seguir ocorre: 1) a taxa de herbívora supera a taxa de crescimento daquelas microalgas, ou; 2) um dos componentes necessários para o crescimento das algas é reduzido, limitando este crescimento. Os principais componentes são a luz e nutrientes, mas algumas algas são limitadas também pela temperatura da água.

[L] A floração de microalgas é sempre nociva/tóxica? Cada espécie possui uma toxina diferente?


[PL] Não. Florações de microalgas são necessárias, as microalgas são o "pasto do oceano" alimentando toda a vida marinha. Porém, em situações em que se acumulam demais, elas podem causar efeitos deletérios no ambiente. E nem toda floração nociva é tóxica. Sim, cada um produz uma toxina específica.

[L] Em Ubatuba, Praia do Itaguá, Março/22, registro de Dinophysis acuminata. Foram registrados 11 mil organismos/L. É muito? Qual sua toxina e o que ela causa?

[PL] Sim. Esta espécie produz ácido ocadaico que provoca diarréia.

[L] Você acredita que a frequência e a duração das florescências estão aumentando?

[PL] Sim. Possíveis causas são o aumento de despejo de esgoto nas águas costeiras e o aumento na frequência de eventos climáticos extremos como ondas de calor.

[L] Quais os impactos econômicos da maré vermelha no país?

[PL] Danos à saúde pública; Prejuízos ao turismo, aos pescadores artesanais e aos maricultores; Degradação ambiental

[L] Na sua opinião, o que falta conhecer sobre o fenômeno?

[L] Gatilhos ambientais regionais para a ocorrência das florações, gatilhos ambientais para a produção de toxinas.



Priscila Lange é Graduada em Ciências Biológicas pela UFRJ, Mestre em Oceanografia Biológica pela FURG, Doutora em Ciências da Terra pela Universidade de Oxford, e

Pós-Doutora em Sensoriamento Remoto pela NASA.






Essa entrevista foi coordenada e realizada pela Elisa Mello, colaboradora de conteúdo da Liga das Mulheres pelo Oceano.



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