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  • Foto do escritorColaboradoras da Liga

Novembro Negro

Por

Barbara Pinheiro

& Ádria Freitas


Como muitas de vocês sabem, no Brasil, comemoramos no dia 20 de Novembro, o dia da Consciência Negra, uma data importante que busca refletir sobre a contribuição dos afrodescendentes para a cultura e a sociedade brasileira, bem como, levantar discussões sobre a igualdade racial e o combate ao racismo. A escolha da data é em homenagem a Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, que foi um símbolo da resistência contra a escravidão no Brasil.

Durante o mês de novembro, diversas atividades, eventos, palestras e manifestações culturais são realizadas em todo o país para promover a conscientização sobre a história, a cultura afro-brasileira e a importância de combater o racismo. Essas iniciativas têm como objetivo ampliar o entendimento sobre a diversidade étnica e cultural do Brasil, além de promover o respeito e a valorização da população negra.

Esse ano, aqui em Alagoas, mais uma edição do Projeto Vamos Subir a Serra encheu de cores e ritmos a praça de multieventos de Maceió, e subiu a serra da Barriga para celebrar o Mês da Consciência Negra no Parque Memorial Zumbi dos Palmares. E junto com esse evento ocorreu também a quarta edição do Congresso de pesquisadores/as negros/as do Nordeste! O IV COPENE NORDESTE teve como tema “Duas décadas de ações afirmativas: o legado de Palmares e o futuro das políticas públicas”. O intuito foi promover o encontro de pesquisadores/as, estudantes, intelectuais, comunidades acadêmicas, agentes políticos governamentais e não-governamentais, lideranças dos movimentos sociais negros, a fim de refletir sobre a importância das políticas de ações afirmativas no Nordeste e, em tempo, avaliar os desafios e avanços de tais políticas para a população negra na região.

Foi durante a programação do IV Copene, em conjunto com o Projeto Vamos Subir a Serra, que a palestra da Dra. Bárbara Carine (@umaintelectualdiferentona) aconteceu, e eu pude finalmente ter uma conversa com a minha xará! Com sua fala potente, certeira e diferenciada, Bárbara palestrou por cerca de uma hora, sobre diversos temas, incluindo muito do que ela fala em seus livros, sobretudo o último lançado (Como ser um educador antirracista) que eu, fortemente, indico para todos e todas que estão lendo esse texto no nosso Blog agora!

A indicação deste livro também surgiu nos momentos de partilha entre as participantes do GT Mulheres Negras da Liga, e o encontro das Bárbaras Pinheiro (sim, eu e a intelectual diferentona temos também o sobrenome em comum hehehe) rendeu muita inspiração e até um recadinho por vídeo para todas as integrantes do GT!

E é sobre o nosso GT que eu vou escrever agora!

Para quem ainda não nos conhece, o GT de Mulheres Negras da Liga das Mulheres pelo Oceano é um grupo comprometido com a promoção da igualdade racial, étnica, de gênero e com a conservação dos ecossistemas oceânicos. Seu objetivo principal é criar um espaço de união, compartilhamento, aprendizado e ação para mulheres negras (pretas e pardas) que compartilham o interesse pela preservação dos oceanos e pela justiça social e ambiental, sejam elas de quaisquer setores da sociedade, sem distinção. Somos sabedoras(es) que a maior parte da nossa população da costa brasileira é formada por pessoas negras, especialmente a população pesqueira. E são essas pessoas, com destaque para as mulheres desses maretórios, um dos grupos que mais sofre com as mudanças climáticas e o racismo ambiental.

Assim, a Liga não poderia deixar de ter um espaço como esse e de levantar mais essa bandeira, que também está ligada às questões oceânicas.


E já aproveitamos para fazer o convite: se você é uma mulher negra (preta ou parda), que tem uma conexão forte com o oceano, quer seja por conta da profissão, vivência, ou , simplesmente, pela paixão pelo mar, e que deseja participar desse grupo, se inscreva no nosso formulário.

Nossas reuniões ocorrem mensalmente, geralmente à noite, nas últimas segundas-feiras de cada mês. E na partilha da nossa reunião de Outubro, já planejando algo especial para a programação do nosso Novembro Negro, a Ádria (representante da região Norte) compartilhou sua inquietude sobre a questão do colorismo nas bancas de heteroidentificação, que são utilizadas para verificar a autodeclaração racial de candidatos(as) a concursos públicos e programas de ação afirmativa, e eu a convidei para escrever algo aqui no blog sobre o tema. Então passo a palavra agora para a Ádria!

Manas, manos e manes, inicio meu relato afirmando que participar de uma banca de heteroidentificação pela primeira vez, sendo indicada por movimentos sociais, foi bem mais complicado do que eu já imaginava que seria. Julgar a autodeclaração de outras pessoas é extremamente complexo, principalmente sendo eu pessoa negra de pele clara, ou parda.

E por que considero isso um agravante? Porque ser parda no Brasil é como estar em um “limbo”. Por muitas vezes não fui considerada negra o suficiente para estar apta a concorrer à cotas ou participar do movimento negro. E também já não fui considerada branca o suficiente para desfrutar dos privilégios da branquitude. E ainda já escutei por inúmeras vezes: “Mas tu não és negra. Tu és morena”.

E mesmo com todo o letramento racial que a gente corre atrás para tentar se entender nesse cenário, ainda nos vemos perdidas. E isso é certamente reflexo de um tema extremamente debatido atualmente, e ainda muito polemizado: o Colorismo.

Segundo a advogada e pesquisadora, Alessandra Devulsky, em seu livro Colorismo, que integra a coleção Feminismos Plurais, o colorismo é basicamente uma categorização, uma ideologia na qual hierarquizamos as pessoas negras de acordo com o fenótipo que têm: aproximado ou distanciado da africanidade; ou aproximado ou distanciado da europeidade. A autora também classifica o colorismo como um “braço articulado do racismo” e faz uma análise histórica de como a hierarquização racial utilizada pelos colonizadores para legitimar os processos de dominação e escravização nasceram e foram mantidos.

Dentro do processo histórico, ela cita que em dado momento colonial, a população brasileira era de maioria negra, e no intuito de organizar para enfraquecer as possibilidades de revolta, foram sendo criadas as hierarquizações dentro da população negra, ligadas ao fenótipo. Para exemplificar, ela usa como exemplo as divisões de trabalho. Os trabalhos considerados mais “leves”, como os trabalhos domésticos, eram designados às pessoas escravizadas negras de pele clara, ou seja, com traços fenotípicos mais próximos da europeidade. Enquanto os trabalhos nas lavouras, considerados mais pesados, eram destinados aos escravizados negros de pele escura, com traços mais próximos da africanidade. Esse sistema, sendo realizado sistematicamente por séculos, criou e manteve essa hierarquização, que foi, em alguma medida, introjetada na própria comunidade negra, que percebeu que para alguns isso gerava alguma vantagem. Em resumo, eles utilizaram a estratégia “dividir para conquistar”, do imperador romano Júlio César, e alcançaram seus objetivos. E ainda estão alcançando, já que ainda estamos divididos e debatendo nossa melanina.

Volto ao relato da experiência da banca para tentar demonstrar um pouco como essa estratégia se mantém. Durante o processo de julgamento das autodeclarações deste concurso, uma banca composta de pessoas negras se viu em conflitos de opiniões, por algumas vezes. O que é um processo normal, cuja intenção é dar oportunidade de uma avaliação justa para os candidatos, por meio do debate.

Um dos cases que mais me chamou a atenção foi quando uma pessoa escreveu “preta” no documento de autodeclaração, sendo ela uma pessoa considerada “parda”. Em meu julgamento, a pessoa estava enquadrada na cota, já que, independente de como ela se identificou no documento, ela estava dentro da cota negra (pessoas pretas e pardas). Contudo, não foi uma visão unânime, pois muitos justificaram que a pessoa em questão não poderia se declarar preta por não ter pele retinta, o que faria com que ela não sofresse os mesmos problemas raciais, se utilizando do sistema de cotas e alegando ser o que não era. E que, por este motivo, não deveríamos aceitar a autodeclaração da pessoa.

Entendo perfeitamente a necessidade do comprometimento das bancas em garantir que somente pessoas enquadradas nas cotas tenham, de fato, acesso a elas, dadas as inúmeras fraudes que temos no Brasil. Entretanto, devo frisar que, do meu ponto de vista, tivemos nesse caso uma perspectiva colorista de avaliação. Afinal, a pessoa se enquadrava no grupo negro. Qual foi o real problema aqui? Foi ela ter escrito a palavra “preta” no documento e não ter melanina suficiente para ser declarada por outrem como tal? E como fazemos em relação ao respeito pela autodeclaração de cada um?

Pude observar por essa experiência que as avaliações em bancas de heteroidentificação ainda são muito subjetivas e correm o risco de análises coloristas. E vou além! Há outra questão que merece ser debatida em textos futuros: tivemos candidatos(as) autodeclarados(as) negros(as) com traços completamente indígenas, que é o fenótipo de muitos amazônidas. Para o movimento indígena, o agrupamento Negro (pretos e pardos…e indígenas!) contribui para o apagamento destes grupos.

Como garantir uma avaliação justa, então?

É notório que ainda temos muito a debater sobre as questões étinico-raciais, não apenas no Novembro Negro, mas constantemente. O letramento racial é urgente e necessário! A união dos grupos sub representados é urgente e necessária!

Juntem-se ao GT de Mulheres Negras da Liga e vamos nos acolher, partilhar e aprender juntas! É simples, basta preencher este formulário.

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