• Colaboradoras da Liga

Evergreen e a necessidade de reconhecer riscos

Atualizado: Abr 17

Por Barbara Sanches


É engraçado que quando ouvimos falar sobre noticias da área marítima, elas estão

ligadas em sua maioria à acidentes. O incidente do navio Evergreen, ele acende uma luz

sobre problemas (evitáveis) que enfrentamos com as demandas econômicas e os desafios

ecológicos na área do transporte marítimo.


foto: STR/EFE


Durante muito tempo nós desbravamos e conquistamos territórios. Conseguimos criar

um sistema econômico que gira de forma à suprir todos os cantos do planeta. Este encalhe e total bloqueio do Canal de Suez, aconteceu no Egito, e fez com que todos nós, marítimos ou não, virássemos nossa atenção pro continente africano.


Quando falamos de transporte marítimo, muitas vezes é difícil as pessoas imaginarem a

complexidade que existe no planejamento e na execução das operações marítimas. Por quê é importante falarmos sobre a relevância e a vulnerabilidade das rotas marítimas? Hoje 80%

do que consumimos chegam em nossas casas graças ao transporte aquaviário. Só no canal de Suez, 12% do comercio global, depende desse trecho, de pouco menos de 200km de extensão e apenas 300m de largura. Imaginem, grandes navios, preparados pra carregar centenas de containers, toneladas de combustível, passando todos os dias por esse estreito atalho, que conecta a Ásia ao mercado Europeu.




Qual a relevância do canal de Suez para o meio ambiente? Bom, este canal oferece uma

rota muito mais rápida, Por exemplo, uma rota de Mumbai à Londres, pelo canal de Suez

representa 11600km, enquanto a rota opcional, pelo Cabo da Boa Esperança, no sul da

África, representa quase o dobro disso, 19800km. Isto significa que os navios passando por

esse "atalho" economizam tempo e combustível. Menos combustível queimado, significa

menos emissões de gases do efeito estufa no mar. Porém a eficácia das rotas marítimas,

permite que portos sejam utilizados de forma mais eficaz também, o que significa mais navios e mais cargas chegando.

O bloqueio do canal expõe a grande vulnerabilidade da logística marítima, que

depende demais dessa rota. O bloqueio forçou muitas embarcações a darem a volta pelo sul

da África, aumentando as emissões de gases do efeito estufa, sobrecarregando os portos e

aumentando o fluxo de navios vazios, mostrando não só a vulnerabilidade da economia

mundial, mas o despreparo do setor em relação à esse tipo risco.


O acidente acontecido com a EverGreen, poderia ter acontecido com qualquer outra

companhia navegando naquela região e com aquelas condições. Os bancos de areia foram os grandes causadores da falta de manobrabilidade do navio e eventualmente do encalhe. Mas qual é o nível de tolerância ao risco envolvido no comercio internacional? Sabemos que

centenas de navios enormes passam todos os dias por trechos estreitos para garantir o

suprimento rápido dos maiores mercados globais, a despeito dos grandes riscos envolvidos.


Qual é a tolerância de risco para que possamos garantir energia para o mundo todo? E

quando falamos de doenças contagiosas, como a covid-19, qual é o nosso nível de tolerância para garantir mercados abertos, e economia saudável?


Eu acredito que a busca pela saúde da economia tem a capacidade ofuscar bastante o

nosso senso de segurança e dita o que estamos dispostos a colocar em risco. Vemos isso com o meio ambiente, todos os dias. Precisamos entender que a natureza ela faz parte da nossa economia e devemos trata-la como aliada e não só como meio. Analisar riscos, envolve também reconhecer limitações. E esse é não só o maior desafio da logística marítima após esse acidente, mas de todas as atividades econômicas mundiais em face às mudanças climáticas.

Nos resta a reflexão de como precisamos repensar nossos hábitos para garantir um

mundo onde nossos filhos e netos poderão viver de forma sustentável e atividades econômicas que respeitem os limites do nosso planeta.





*Barbara Sanches é oficial da marinha mercante brasileira, especializada na área de

náutica. Trabalhou durante 5 anos a bordo na costa brasileira. Radicada em Marselha, hoje

ela trabalha como artista plástica e profissional de marketing e comunicação.

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