top of page

Dicas de quem “mora no paraíso” - e passa raiva no verão

  • Foto do escritor: Colaboradoras da Liga
    Colaboradoras da Liga
  • há 10 horas
  • 3 min de leitura

Por Beatriz Mattiuzzo



Sempre fui daquelas pessoas que amam o verão. Algo intangível sobre a energia dessa época, que me parece aquele pedacinho do Brasil que deu certo. Mas, tenho que admitir que morar em uma comunidade costeira por 7 anos mudou minha dinâmica com a estação: essa virou também a época que eu mais passo raiva. 


O lado lindo continua: calor, vontade de ficar para fora, na natureza, águas mais calmas — pelo menos até a passagem do primeiro jet ski. Vivendo em uma ilha, numa vila caiçara com 250 pessoas, eu sempre relaciono esse pequeno microcosmos com a complexa existência humana — e quanto mais gente, mais impacto causamos.


Os problemas estruturais são previsíveis, e daria para se preparar. Mais gente significa mais lixo — então precisamos melhorar a gestão de resíduos. Significa mais uso de água num cenário de escassez hídrica — e aí entram cisternas e afins. Alguns, eu aprendi a mapear. Mas todo ano aparece um que eu não vi chegar.


No verão passado, foi o ar-condicionado — que por si só, já é um privilégio para poucos e um símbolo do racismo ambiental. Mas mesmo quem teve acesso a tal luxo, viu esses recursos virarem inúteis num instante, quando nas ondas de calor, com todo mundo ligando ao mesmo tempo, o sistema de energia da ilha toda entrou em colapso por sobrecarga.


Esse ano, escassez hídrica: sabíamos que a água ia faltar e nos preparamos. O que ninguém previu foi que a água acumulada, sem tratamento adequado, em uma comunidade acostumada com água corrente vinda da nascente, viraria caldo para surtos de virose. A solução de um problema criou outro que não estava no mapa.


Se nem eu, moradora há tantos anos, consigo dimensionar as consequências de um fluxo mais intenso de pessoas, entendo porque precisam existir profissionais dedicados apenas a essa tarefa. Infelizmente, ainda estamos um tanto longe desse cenário — enquanto isso, aqui vão algumas dicas fora do óbvio que aprendi na prática:


- Leve seu lixo embora. Não estou falando de levar o lixinho consumido na praia para a lixeira. Quase 42% dos municípios costeiros brasileiros não têm coleta seletiva - se é o caso de onde você estiver, lave seus recicláveis e leve-os para algum centro urbano, até um ponto de coleta adequado.


- Long neck não! A gente consegue reciclar praticamente todas as latinhas - mas a “moda” é garrafinha de vidro: pesada, difícil de transportar, com poucas recicladoras no Brasil, quase uma sentença para virar cacos de vidro enterrados para sempre. 


- Pergunte antes de fotografar. Parece óbvio, mas raramente é praticado. Você não chega numa fazenda, pula a cerca e sai fotografando. As comunidades costeiras não têm cerca, mas isso não significa que a praia não seja o quintal de alguém.


- Entenda a infraestrutura antes de chegar. Tem energia estável? De onde vem a água? É tratada? Essas perguntas parecem chatas, mas são também uma forma de respeito — e podem evitar que a sua presença sobrecarregue um sistema que já opera no limite.


- Procure formas de apoiar os locais. Existe uma diferença entre visitar um lugar e consumi-lo. Normalmente, a pousada mais bonita e o restaurante mais chique não são de quem nasceu e cresceu ali. Um resort resolve os inconvenientes de infraestrutura do paraíso com elegância. Mas, se você chegou até aqui no texto, provavelmente quer outra coisa. Procure quem mora ali de verdade — e normalmente dá trabalho procurar — afinal, não são esses pequenos empreendedores que têm o melhor marketing. Recentemente, viajei com a Vivalá e fiquei feliz de ver a seleção de iniciativas de base comunitária que eles promovem.




Beatriz Mattiuzzo é oceanógrafa, mestre em Desenvolvimento Sustentável e empreendedora social, tendo fundado a Marulho. A Marulho é um negócio socioambiental que atua em Ilha Grande e transforma redes de pesca em novos produtos como bolsas e sacolas, evitando a pesca fantasma e gerando renda em comunidades caiçaras. Atua nos modelos B2B e B2C, voltado para sustentabilidade e economia do mar. Maiores Informações no site https://fazermarulho.com.br/













Comentários


© 2024 Liga das Mulheres pelo Oceano

  • instagram
  • facebook
bottom of page