Meio ambiente em tempos de guerra
- Colaboradoras da Liga

- há 5 dias
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Por Natalia Grilli e Marina Dale
Escrever sobre guerras e conflitos armados é sempre algo delicado. Uma vez que nunca vivemos isso na pele, este texto é o resultado de leituras, reflexões, indignações e conversas que tivemos ao longo dos últimos tempos. Gostaríamos de começar prestando nossa mais sincera solidariedade a todas, todes e todos que vivem ou viveram os horrores da guerra e de conflitos armados, sejam eles internacionais ou dentro do território brasileiro. Quando se fala em guerras, é evidente que todos os envolvidos vão enfrentar inúmeras perdas.

Perdem-se vidas, sonhos, dignidade, futuro… e perde-se também o meio ambiente. Este é tratado frequentemente como efeito colateral em conflitos armados; afinal, questões humanitárias, econômicas e políticas são prioritárias nesses momentos. Contudo, a devastação ambiental em zonas de guerra é ponto central para essas questões, quando não é o ponto de partida dos conflitos. Dados apontam que, de 1955 a 2015, 40% dos conflitos armados internos foram causados majoritariamente por disputas sobre a exploração de recursos naturais [1].
Mais diretamente, guerras resultam em degradação de habitats, contaminação do ar, solo, água - rios, lagos e oceano. Exemplos não faltam. Durante a guerra entre Israel e Líbano, em 2006, o bombardeio de uma estrutura energética libanesa emitiu de 10 a 15 mil toneladas de petróleo no Mar Mediterrâneo [2], afetando não apenas a biodiversidade marinha, mas também as comunidades costeiras da Líbia e parte da Síria. Essa degradação ambiental carrega um forte fator de injustiça ambiental, afinal, quem mais sofre são as populações mais vulneráveis, que têm menos condições de lidar com esses efeitos adversos, aumentando a pobreza e a instabilidade política. Pesquisas indicam que os impactos ambientais causados por guerras são duradouros, e países necessitam de 20 a 30 anos para se recuperarem [3].
Esse tema também está diretamente conectado à justiça climática. Países afetados por conflitos armados têm menos chances de mitigar e se adaptar às mudanças climáticas [4]. A devastação e contaminação de ambientes-chave, como florestas e áreas úmidas, deixam esses países menos resilientes aos impactos da emergência climática e mais suscetíveis a conflitos futuros. Novamente, exemplos são fartos. Na República Democrática do Congo, conflitos armados e mudanças climáticas se reforçam e agravam a situação na região [2]. Nos últimos anos, conflitos internos e fortes enchentes foram responsáveis pela migração forçada de milhões de pessoas [5], que têm o potencial de aprofundar ou criar novos conflitos.
Ainda no tópico de mudanças climáticas, vale mencionar a relevante pegada de carbono da indústria militar. Segundo um estudo do Scientists for Global Responsibility and the Conflict and Environment Observatory, em 2022 o setor militar foi responsável por 5,5% das emissões globais de gases de efeito estufa [6]. Isso quer dizer que, se o setor fosse um país, seria o quarto maior emissor do planeta, à frente de países como Japão e Rússia. Importante ressaltar que a contribuição do setor militar não se dá apenas em tempos de guerra. Cerca de 30% das emissões de carbono do exército dos Estados Unidos da América (EUA) são referentes ao “modo operacional”, ou seja, manutenção de bases ao redor do mundo e exercícios militares [7]. Esses números são estimativas - e provavelmente subestimados - uma vez que existe uma falta de transparência do setor militar em reportar suas emissões. Até hoje, o setor pode reportar suas emissões de gases de efeito estufa de forma voluntária dentro do Acordo de Paris [8].
Percebem que é uma retroalimentação perversa? A escassez ou má gestão de recursos naturais causa conflitos armados que degradam ainda mais o ambiente, emitem toneladas de gases de efeito estufa e contribuem ainda mais para as mudanças climáticas que aprofundam a escassez dos mesmos recursos.
Além desses impactos diretos e indiretos das guerras ao meio ambiente, gostaríamos também de comentar o impacto financeiro da tendência dos últimos anos de países investirem recursos cada vez maiores em gastos militares. Apenas em 2024, foram mais de 2,7 trilhões de dólares investidos globalmente na indústria de defesa [9]. Um minuto de silêncio para vocês refletirem sobre o que isso significa. Reverter apenas 5% desse valor já seria o suficiente para alcançar a meta global de 100 bilhões de dólares para financiamento climático. Em seu discurso na plenária de abertura da Assembleia Geral da ONU em 2025, o Secretário-Geral António Guterres apontou que, para cada dólar investido em operações de paz das Nações Unidas, foram investidos 750 dólares em armamentos de guerra [10]. Aí temos um claro retrato das prioridades de diversos governos atualmente.
Mas talvez isso esteja mudando justamente por causa de uma guerra. Não pelos motivos ambientais e humanitários citados acima, mas estratégicos. A guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã e o consequente fechamento do Estreito de Hormuz fez muitos líderes mundiais perceberem o quanto suas economias são extremamente dependentes de combustíveis fósseis provenientes de poucas regiões do globo, percepção essa que já vinha ganhando força desde a guerra entre Rússia e Ucrânia. O choque do petróleo e a diminuição da oferta de combustíveis fósseis decorrentes dessas duas guerras podem levar países a investirem mais em redes mais descentralizadas de energias renováveis e economia circular, para ficarem mais independentes e resilientes de circunstâncias externas adversas. Vale ressaltar que tais investimentos devem ser acompanhados de uma abordagem centrada em direitos humanos e ambientais. Repetir o modelo colonialista e exploratório para energias renováveis não resolve o problema. Afinal, atualmente as principais energias renováveis também são baseadas em minerais específicos, como cobre, lítio, manganês, e países ricos nesses recursos estão vivenciando aumento de conflitos internos, como a já citada República Democrática do Congo [5].
Como disse o ex-presidente da Colômbia e ganhador do Nobel da Paz, Juan Manoel Santos, ao se dirigir ao Conselho de Segurança da ONU em 2023: “Não há paz sem desenvolvimento sustentável, e não há desenvolvimento sustentável sem paz” [11].
É nesse contexto que o discurso do presidente Lula na abertura da Terceira Conferência da ONU sobre os Oceanos, em Nice, França, em 2025 [12], ganha ainda mais força política. Ao afirmar que sem proteger o oceano não há como combater as mudanças climáticas, Lula desloca o debate ambiental para o centro de discussões globais e o oceano passa a ser compreendido como elemento estratégico para a estabilidade climática, segurança alimentar e sobrevivência de bilhões de pessoas.
Ainda segundo Lula, a consagração do oceano como “patrimônio comum da humanidade”, estabelecida pela Convenção da ONU sobre o Direito do Mar, simboliza uma conquista histórica para a diplomacia. A criação de um regime internacional para governar os mares demonstrou ser possível construir consensos em torno de bens comuns. Hoje, no entanto, esse legado enfrenta uma ameaça crescente, que se manifesta nas dinâmicas geopolíticas atuais.
O aprofundamento de políticas coercitivas e sanções por parte do governo dos EUA, na figura de Donald Trump, reforça uma lógica de confronto que fragiliza mecanismos multilaterais e aprofunda instabilidades regionais. Da mesma forma, o genocídio [13] promovido por Israel contra a Palestina evidencia os limites das instituições internacionais em mediar conflitos e garantir o cumprimento do direito internacional.
Enquanto isso, como apontado anteriormente, recursos que poderiam ser destinados à proteção do oceano e ao enfrentamento da crise climática são redirecionados para gastos militares. O resultado é um cenário em que se enfraquece a cooperação internacional ao mesmo tempo em que se agravam os problemas que exigiriam, justamente, uma maior coordenação global.
Diante desse quadro, a defesa do multilateralismo reforçada em Nice se afirma como um projeto político mais amplo de fortalecimento da ordem internacional. Transformar o oceano em um espaço de cooperação, e não de disputa, significa, parafraseando o discurso do presidente Lula, reafirmar que canais, golfos e estreitos devem servir como pontes entre nações, e não como pontos de conflito.
É justamente nesse cenário que se destaca a importância do Tratado do Alto Mar (também conhecido como BBNJ), um dos avanços mais recentes da governança global dos oceanos. O acordo sobre a conservação e o uso sustentável da biodiversidade marinha em áreas além da jurisdição nacional representa uma tentativa de atualizar o espírito multilateral da Convenção do Direito do Mar e simboliza a possibilidade de reconstruir a cooperação internacional em torno de um bem comum global.
Assim, a construção de um futuro compartilhado depende da capacidade de fortalecer a paz e, simultaneamente, assegurar o desenvolvimento sustentável. Se a guerra intensifica a crise ambiental, e a crise ambiental, por sua vez, alimenta novos conflitos, o multilateralismo se apresenta como um caminho capaz de romper essa espiral.

Natalia de Miranda Grilli é ambientalista, pacifista e defensora da cooperação internacional. Bióloga, mestre em Oceanografia, ambas pela USP, e doutoranda em Ciências Políticas e Relações Internacionais na Universidade da Tasmânia (Austrália). Co-fundadora da Liga das Mulheres pelo Oceano e colaboradora da newsletter.

Marina Vieitas Dale é bióloga pela USP e mestranda em ecologia pela UNICAMP, pesquisando manguezais em áreas protegidas no Brasil. É integrante da Liga das Mulheres pelo Oceano e colaboradora da newsletter.



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