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O Afogamento de Ilhas e Cidades: A Nova Realidade Climática

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    Paula Pereira
  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 2 horas


Por Paula Silva Pereira


Cidades inteiras estão afundando. Outras estão sendo lentamente engolidas pelo mar. E alguns países já discutem como continuar existindo, mesmo sem território.


A crise climática deixou de ser um cenário futuro. Ela está redesenhando o mapa do mundo.


Recentemente, abordamos a questão ambiental em um mundo tomado por conflitos e guerras, os custos desta equação e toda a injustiça socioambiental envolvida. Assim como as guerras, a crise climática também gera refugiados, principalmente em um mundo em que dois terços das maiores metrópoles situam-se na zona costeira.


Nos últimos anos, já foram observadas (e sentidas) inúmeras consequências desta crise. Entre os principais impactos climáticos nestas zonas, destaca-se o aumento do nível do mar. Ao longo do século XX, a taxa de elevação mais que dobrou de velocidade. Esse processo, acelerado devido ao aquecimento global, é induzido primariamente pelo derretimento das calotas polares e pela expansão da água salgada, à medida que ela se aquece. Hoje, milhões de pessoas já vivem em áreas vulneráveis a inundações. E esse número só cresce.


A elevação do nível do mar é um desafio urgente, especialmente para países em desenvolvimento, que muitas vezes não têm planejamento ou recursos financeiros para adaptação climática. Entre os mais vulneráveis estão os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento, uma vez que a maioria deles encontra-se em uma região onde o aumento do nível dos oceanos está projetado para ser entre 10% e 30% superior à média global.


Desde 2009, representantes destes países vêm se manifestando nas COPs e exigindo maior comprometimento na redução das emissões e consequente diminuição da temperatura global. Enquanto estão entre os países que menos contribuem para a crise, são os que mais sofrem seus efeitos, enfrentam o risco real de desaparecer em breve caso nenhuma medida seja tomada.


Em 2022, durante a COP27, diante desta dura realidade, o ministro de Tuvalu anunciou uma decisão drástica: criar uma versão digital do Estado no Metaverso. O Projeto, chamado “Future Now”, busca preservar cultura, tradição, documentos, estruturas de governo, além da própria soberania nacional. Ainda não existem leis internacionais para tais situações, mas Tuvalu já estabeleceu uma nova definição de Estado em sua Constituição, que também já é reconhecida por outros países. A proposta também visa garantir direitos sobre o território marítimo e a Zona Econômica Exclusiva.


Apesar da ideia inovadora, a iniciativa é ao mesmo tempo contraditória, pois representa o mesmo uso de recursos que tanto critica. Para sustentar um projeto desta escala, são necessários equipamentos, infraestrutura física para os centros de dados, servidores, além de manutenção (gasto de água e energia), o que gera um impacto ambiental significativo. Enquanto isso, medidas físicas de adaptação recebem menos investimento. Paralelamente, acordos internacionais, como o firmado com a Austrália para acolhimento de refugiados climáticos, tornam-se alternativas também.


Agravando os efeitos do avanço do mar, o solo de algumas cidades está subsidindo e elas estão literalmente afundando. Esse processo ocorre em diversas partes do mundo, mas na Ásia afeta 63 cidades costeiras, principalmente em áreas deltaicas, sendo resultado de décadas de crescimento urbano desordenado, degradação ambiental, superpopulação e, principalmente, da extração descontrolada de águas subterrâneas para uso doméstico, industrial e agrícola.


Jacarta, capital da Indonésia e hoje a cidade mais populosa do mundo, é um dos exemplos mais críticos. A cidade enfrenta enchentes frequentes, que afetam principalmente as populações mais vulneráveis. Diversas soluções foram propostas, desde megaprojetos de contenção até a mudança da capital para outra ilha, ambas amplamente criticadas pelos impactos socioambientais.


A construção de um dique offshore, por exemplo, poderia levar ao acúmulo de água e poluentes vindos dos rios e da própria baía, favorecendo processos como eutrofização. Já o projeto de transferência da capital para a ilha de Bornéu, inicialmente pensado como uma “cidade tecnológica sustentável”, na prática trouxe significativos impactos socioambientais num local com alta etnobiodiversidade: desmatamento de florestas e manguezais, fragmentação de habitats de inúmeras espécies e de territórios de diferentes povos indígenas, geração de resíduos sem destinação adequada nos locais de obras, aumento da mineração na ilha de Sulawesi para aquisição de matéria-prima para construção, aumento de inundações na região, entre outros.


Mais recentemente, no entanto, o governo tem adotado medidas consideradas mais realistas, com foco em soluções baseadas na natureza. Entre elas estão a proibição da extração de água subterrânea, ampliação do acesso à água encanada e projetos de restauração de rios e manguezais, remoção de resíduos e criação de áreas verdes voltadas à retenção de água.


Algumas cidades demonstram que a adaptação é possível. Bangkok, Xangai e Tóquio adotaram estratégias eficazes como o controle rigoroso da extração de água subterrânea e hoje lidam melhor com a crise. Em Bangkok, por exemplo, parques com áreas úmidas foram projetados para absorver grandes volumes de água, reduzindo impactos de enchentes e contribuindo para a promoção da biodiversidade.


O problema, no entanto, não está distante. No Brasil, mais de 19 milhões de pessoas vivem em áreas costeiras em risco. No estado do Rio de Janeiro, a maior parte da população já está exposta às consequências deste processo. Segundo estudo de modelagem realizado pela COPPE, praias urbanas do Rio e áreas de manguezais da Baía de Guanabara podem desaparecer e as lagoas costeiras podem se expandir até o final do século.


Outro exemplo de região que sofre com impactos ambientais, desde a década de 50, é Atafona, distrito de São João da Barra no norte do estado do Rio de Janeiro. Localizada próxima ao delta do Rio Paraíba do Sul e, diferente das regiões deltaicas mencionadas anteriormente, ela sofre principalmente com a erosão costeira. Uma parte expressiva do território já foi perdida para o mar, e cerca de 500 construções já foram destruídas.


Entre os fatores, o uso excessivo e a degradação do Rio Paraíba do Sul e a construção de barragens para desvio de água para abastecimento da metrópole do Rio de Janeiro são os principais. O desmatamento da Mata Atlântica e o crescimento populacional ao longo do curso do rio também contribuem. Tudo isso influencia a diminuição da vazão do rio e o aporte de sedimentos, o que gera um desequilíbrio e faz com que o mar avance.

Atualmente estes efeitos são intensificados por eventos climáticos extremos. Embora existam iniciativas de reassentamento e apoio financeiro, soluções estruturais ainda são limitadas e recentes.


Outras regiões do Brasil, como as Ilhas do Cardozo e Comrida, no litoral sul de São Paulo, também sofrem com os efeitos da erosão costeira, de origem natural, mas que são intensificados pela elevação do nível do mar. Em escala global, a costa leste da África é uma das mais vulneráveis e ainda carece de planejamento adaptativo. Mesmo países do Norte Global não estão imunes: cidades dos Estados Unidos estão suscetíveis, inclusive aos impactos da subsidência do solo.


Algumas cidades da Europa, como Veneza, um exemplo clássico, e Amsterdã e Roterdã, já possuem grande parte de seu território abaixo do nível do mar. As duas últimas são referências globais em adaptação climática, utilizando soluções baseadas na natureza e infraestrutura inovadora como tetos verdes, praças que funcionam como reservatórios de água, gestão hídrica eficiente, bairros flutuantes, transição energética e a construção de barreira física móvel e tecnológica para proteção dos canais e do porto.


A crise climática não é apenas ambiental. Ela é social, econômica e política. A elevação do nível do mar e o afundamento das cidades não são previsões distantes, elas já estão acontecendo.


Regiões mais vulneráveis, muitas vezes localizadas no Sul Global, enfrentam perdas contínuas de território, além de falta de infraestrutura e de condições básicas de vida, enquanto países do Norte Global, historicamente responsáveis por uma parcela significativa das emissões, dispõem de mais recursos, planejamento e capacidade de adaptação.

 

Nesse contexto, a crise climática expõe as desigualdades já existentes, refletindo dinâmicas de injustiça e racismo ambiental. Diante desse cenário, a questão que permanece não é apenas como conter os impactos, mas até quando esse padrão de desigualdade será sustentado.




Paula é oceanógrafa (UERJ), trabalha com monitoramento e conservação de mamíferos aquáticos e mitigação de impactos da indústria nestes animais. Integrante da Liga das Mulheres pelo Oceano, iniciou sua colaboração em 2025 produzindo conteúdo para a Newsletter e como participante do GT Década. Atua como voluntária em projetos de conservação marinha e educação ambiental.









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