top of page
  • Foto do escritorColaboradoras da Liga

Pesca Fantasma e Empreendedorismo Feminino: de grave problema do mar à oportunidade

Atualizado: 27 de fev.

Por Débora Camacho Luz e Malu Abieri


Pesca fantasma parece algo bastante assustador, não é mesmo? E é! Não envolve nada de sobrenatural, mas diversos seres marinhos acabam mutilados, presos e até afogados por objetos que, na maioria das vezes, não estão vendo. A Pesca Fantasma envolve petrechos de pesca (instrumentos como redes, anzóis e espinhéis), que foram abandonados ou perdidos pelos pescadores, e que continuam capturando os animais marinhos mesmo sem a intenção, por isso “fantasma”. Anualmente, estima-se que 25 milhões de animais são afetados pela pesca fantasma na costa do Brasil (clique aqui para saber mais do estudo Maré Fantasma). Além da pesca acidental, este problema também afeta economicamente as comunidades pesqueiras e termina por liberar microplásticos no oceano (quer saber mais sobre a pesca fantasma e suas consequências clique aqui).


Mas e o que a Pesca Fantasma e o Empreendedorismo Feminino têm a ver entre si? Como aconteceu essa “captura”?


Empreender, palavra com origem no francês “entreprendre”, significa “assumir empreitada que exige esforço e muito empenho” ¹. Palavras como empreendedor e empreendedorismo estão na moda, sobretudo após a pandemia de COVID-19, onde muitas pessoas precisaram se reinventar para sobreviver ou simplesmente encontraram uma oportunidade de gerar uma renda extra em tempos de tantas incertezas. O empreendedorismo feminino estimula o protagonismo de mulheres na idealização, criação e liderança nos negócios. O que contribui para uma maior participação de mulheres no mercado de trabalho, estimuladas também pelo sentimento de sororidade (cooperação e acolhimento entre mulheres) e redução da desigualdade de gênero.


E foi neste cenário que o casal de oceanógrafos, Bia Mattiuzzo e o seu companheiro, Lucas Gonçalves, idealizaram a empresa Marulho, na Ilha Grande, em Angra dos Reis/RJ. Conversamos com a Bia para entender quais os caminhos percorridos, quais os desafios enfrentados, dicas para mulheres que querem apostar em um novo empreendimento e, principalmente, dificuldades pessoais encontradas por ela, por ser uma mulher jovem em um meio dominado pelos homens, como o mar e a pesca.


Bia e Lucas, fundadores da Marulho na Ilha Grande - Angra dos Reis/RJ. Imagem cedida por: Bia Mattiuzzo.

Bia nos contou que não teve um “clique” para criação da Marulho, mas sim que foi um processo. Formada em oceanografia pela Universidade de São Paulo e mestre em Práticas de Desenvolvimento Sustentável, Bia trabalhou como voluntária fora do Brasil e acabou na Ilha Grande no Rio de Janeiro como instrutora de mergulho em um trabalho temporário, onde foi cativada pela comunidade local e viu que ali seus conhecimentos científicos poderiam ser mais úteis. Ao se aproximar das comunidades caiçaras (tradicionais) da Ilha, percebeu a dimensão da realidade paradoxal, de um lado um local paradisíaco com forte turismo náutico de luxo e do outro uma comunidade caiçara vulnerabilizada com grandes problemas sociais e ambientais, como resíduos gerados pela pesca e prejuízos da pesca fantasma.


Ela nos conta que durante os meses que passou por lá, via se acumular redes de pesca deixadas por grandes barcos. Acompanhando essa realidade, Bia e Lucas, desejavam viajar pela costa brasileira conhecendo mais de perto as realidades das comunidades costeiras, buscando por informações e soluções para esse acúmulo de plástico da pesca e outras questões socioambientais. Porém seus planos foram interrompidos em 2020 pelo início da pandemia de covid-19 que não só prejudicaram sua viagem, como agravaram problemas econômicos de comunidades em locais tão dependentes do turismo, como a Ilha Grande. Bia e Lucas viram então a OPORTUNIDADE.  


Criada em uma comunidade de pescadores artesanais na Ilha Grande, a Marulho viu nas redes de pesca abandonadas e no conhecimento dos pescadores locais uma oportunidade de gerar lucro, resolver um problema ambiental grave e ainda gerar impacto positivo para a comunidade, fosse através da geração de renda ou da divulgação do conhecimento. Em seu início, a empresa contou com a ajuda e apoio do Seu Filinho, pescador e redeiro caiçara de 83 anos, que usava seu conhecimento tradicional para entrelaçar as redes de pesca descartadas, confeccionando saquinhos para serem vendidos nas pousadas da Ilha.

No começo a empreendedora conta que teve muita dificuldade para conseguir acessar novos parceiros, muito disso pelo fato de ser mulher, uma vez que a costura das redes nas comunidades pesqueiras é tradicionalmente realizada por homens. Buscando um empoderamento feminino na comunidade, há tanto tempo marcada por um sistema machista, o casal optou por tornar Bia líder nas questões de parcerias da Marulho, enquanto o Lucas seria responsável pelas questões administrativas e contábeis.


Dona Edemeia e Seu Filinho, figuras tão importantes para o sucesso da Marulho. Imagem cedida por: Bia Mattiuzzo.

A “cara” da Marulho se tornou a Bia, que passou a ir às reuniões sozinha e fazer as negociações, conquistando a confiança da comunidade. Ao deixar os materiais para produção nas casas dos pescadores, permitia que os mesmos produzissem em seu tempo e espaço. Assim, também pode conhecer mais de perto a realidade das famílias, passaram a relatar que em algumas as mulheres passaram a ajudar na produção. Aos poucos as mulheres da comunidade passaram a ter mais espaço na confecção dos produtos, estimuladas cada vez mais pela própria Bia (olha aí a tal da sororidade). Criaram então mais produtos que envolvessem a produção feita por mãos de mulheres, como os saquinhos de algodão e as sacolas de algodão e rede de pesca. Esse último sendo uma parceria entre as costureiras e os redeiros. 


Atualmente, a Marulho conta com 17 colaboradores(as) na confecção de produtos, sendo a metade mulheres. Bom, se “Marulho” quer dizer, tecnicamente, barulho do mar, Bia e Luca estão conseguindo gerar muitos marulhos: “Transformando redes de pesca em novos produtos, evitando a pesca fantasma, JUNTO às comunidades costeiras”.  É através dessa pegada, atrelado a um outro lado da Marulho que é a divulgação científica, que eles têm aproximado pessoas do Oceano.


“É uma coisa que eu prezo muito dentro da Marulho, unir o saber das comunidades tradicionais e o saber mais acadêmico e científico. E levar, nem que seja por meio das telas, para pessoas que estejam em outros cantos”. A empresa já realizou diversas oficinas lúdicas para costura da rede de pesca e desenvolvimento de novos produtos, além da valorização do saber e dos conhecimentos caiçaras e conscientização sobre a pesca fantasma.


Para impulsionar a empresa, o casal realizou cursos e “acelerações” como o Sebrae Impacta e a Ago Social, ambos voltados para negócios de impacto. Além de muitos vídeos em plataformas gratuitas, como o YouTube. O empreendedorismo não é romântico, porém esse processo é importante para crescer. Um grande conselho que a Bia dá para quem está começando essa empreitada é: nada se faz sozinha! Busque conhecimento! E defina papéis, sem tentar dominar o espaço do outro. Seja por cursos (gratuitos ou pagos), plataformas gratuitas e/ou redes de contato (Networking). As empresas de impacto positivo costumam ser muito colaborativas e têm grande retorno para ajudar. Ser empreendedor por si só já é um desafio, mas o empreendedorismo feminino e com impacto é algo muito maior. “A maré enchente ergue todos os barcos” (“The rising tide lift all boats”), o sucesso da Marulho trouxe benefícios e sucesso para muitas pessoas da comunidade envolvida além de ganhos ambientais (redução da pesca fantasma e devido descarte do plástico).


Referências | Para saber mais


Sobre a entrevistada

Bia Mattiuzzo, também conhecida como Bia “da Marulho” é a fundadora e faz-tudo da empresa Marulho. Formada em Oceanografia na Universidade de São Paulo - USP trabalhando com bioacústica de cetáceos e mestre em Práticas de Desenvolvimento Sustentável pela UFRRJ onde avaliou o impacto socioambiental da Marulho, além de instrutora de mergulho autônomo NAUI.








Sobre as autoras

Débora Camacho Luz é Bióloga, formada pela Universidade Federal de Rio Grande (FURG), membro da Liga das Mulheres Pelo Oceano e bolsista CNPq DTI na Rede Ressoa Oceano. A Ressoa Oceano é uma rede formada pela Liga das Mulheres Pelo Oceano, o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da UNICAMP (LabJor), a Cátedra da Unesco pela Sustentabilidade do Oceano e a Ilha do Conhecimento. Essa rede tem como objetivo promover a ciência e a cultura oceânica para além do litoral e centros de pesquisa, conectando cientistas e jornalistas para a abordagem do tema nos meios de comunicação e investindo em projetos e iniciativas de comunicação sobre o oceano.




Maria Luiza Abieri é Bióloga e Mestre em Ecologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, atua como colaboradora do Bate-Papo com Netuno e bolsista CNPq na Rede Ressoa Oceano. A inserção do Bate-Papo com Netuno à Ressoa Oceano amplia ainda mais a rede, promovendo a divulgação científica e a visibilidade das ciências do mar e cultura oceânica através de informações científicas de qualidade, baseadas em uma linguagem acessível e lúdica.







Esse texto foi produzido em parceria com os projetos Ressoa Oceano e Bate-papo com Netuno.

45 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


bottom of page