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“Quando eu era criança…”:

Atualizado: 29 de out. de 2023

O desafio de levar o oceano para as crianças e construir adultos que conheçam e protejam o mar

Por Débora Camacho Luz e Malu Abieri


Quando eu pergunto para algum adulto “quando você descobriu seu amor pelo mar?”, as respostas começam, quase sempre, da mesma forma: “Quando eu era criança…”, e as fontes de inspiração variam. No dia 12 de outubro comemoramos no Brasil o Dia das Crianças e, por uma bela coincidência, também o dia nacional do mar*1. Aproveitamos a passagem destas celebrações para refletir sobre os desafios de levar o oceano para mais crianças e garantir que ambos tenham um futuro saudável e sustentável. Para falar sobre esse assunto conversamos com uma bióloga e escritora, engajada na divulgação da ciência oceânica e criadora de conteúdo sobre o oceano para crianças.


Jana Del Favero é criadora do personagem Suvaco, um cãozinho que mergulha no Oceano e conta de forma lúdica e educativa suas aventuras com a biodiversidade e os ecossistemas marinhos. Jana nos conta que a ideia de publicar as histórias do Suvaco começou após buscas frustradas, em livrarias, por livros infantis que falassem sobre o oceano para crianças. Ela viu nas histórias para dormir contadas para a sobrinha a oportunidade de ocupar esse nicho ainda pouco explorado e que, muitas vezes, fica apenas no clichê dos bichinhos “carismáticos”, como tartarugas, golfinhos, pinguins e baleias.


A bióloga também percebeu que faltavam livros com conteúdos mais aprofundados, que tivessem um enredo para falar sobre o oceano e não simplesmente apresentassem um determinado animal e suas características de forma superficial. Se a saúde do Oceano no futuro dependerá das nossas crianças e a saúde de nossas crianças dependerá do Oceano é certo que precisamos ir além da superfície para educá-las e sensibilizá-las para conhecê-lo. Assim, Jana juntamente com o ilustrador Gilberto Júnior, buscam explorar outros ecossistemas e levar o cãozinho Suvaco para interagir com outros organismos, nada convencionais, da nossa biodiversidade marinha.


É importante apresentar para as crianças outro universo pois, se não, fica muito limitado. O Oceano é tão amplo, tão gigante, cheio de curiosidades, de informação, para ficar preso só nos bichos carismáticos


Mas a escassez de materiais de qualidade disponíveis nos meios convencionais, como as livrarias, não é o único desafio de levar conteúdo sobre o oceano para crianças. Em uma época em que cada vez mais cedo nos conectamos com o mundo digital, usar esse espaço parece inevitável. E isso tem a ver também com o fato de que, para que livros e conteúdos específicos e educativos cheguem até as crianças, antes precisam chegar aos pais, e a não ser que eles sejam “peixes”, os apaixonados pelo oceano, dificilmente irão procurar educar filhos “peixinhos”.


Criar um perfil nas redes sociais para o Suvaco foi uma das alternativas que a Jana encontrou de atender a demanda do público infantil em conhecer o Suvaco e ao mesmo tempo engajar pais a consumirem conteúdos de oceano para seus filhos. Aliás, você sabia que o Suvaco existe de verdade? Esse simpático cãozinho mergulhador é, na verdade, o cachorrinho de estimação da Jana. Nas redes sociais ela produz conteúdos com o dia a dia do Suvaco, traz curiosidades e interage com o público.


Outra alternativa que tem permitido ampliar a distribuição dos livros é a parceria com projetos ambientais, ONGs e até iniciativas privadas. Os livros do Suvaco, por exemplo, já foram distribuídos gratuitamente por uma rede de shoppings, com direito a contação de histórias feita pela autora. E possuem duas versões digitais para download gratuito, um em parceria com a Rede Abrolhos e outro em parceria com a Década do Oceano através do projeto Maré de Ciência da UNIFESP. Uma coletânea de 4 novos livros, e com novo personagem principal, também está saindo do forno em parceria com uma ONG.


Uma informação importante que Jana nos traz, é que nos últimos anos grandes projetos e agências de fomento têm colocado como exigência em editais e atividades o envolvimento do público infantil. Há, inclusive, projetos criados exclusivamente com o intuito de envolver as crianças nas ciências do mar, como por exemplo o Instituto Monitoramento Mirim Costeiro, criado pela oceanógrafa Carolina Schio e sediado em Santa Catarina, ou a Escola do Mar, uma iniciativa socioambiental com foco na juventude feminina e que visa potencializar o turismo de natureza em conjunto com a conservação da sociobiodiversidade e o desenvolvimento socioeconômico na região de Caravelas, na Bahia.


Mas se por um lado levar o oceano para crianças é um desafio, também pode ser uma oportunidade. Jana nos conta que demorou a se enxergar como empreendedora, e que a “ficha” só caiu quando foi convidada para participar de uma feira de empreendedorismo feminino. O que Jana faz pode ser incluído no nicho do empreendedorismo de impacto, tema do nosso conteúdo para o mês de dezembro. Mas o fato é, seja através de projetos ou com a criação de produtos, levar o oceano para crianças pode trazer muitos retornos, além dos financeiros. Para Jana, por exemplo, a melhor parte de contar histórias para crianças é a interação com os pequenos e o despertar da curiosidade para o oceano.

Se você quer aproveitar a oportunidade e começar nesse nicho, a dica da autora é: “busque inspiração”, e isso é bem fácil no mundo conectado de hoje. Jana conta que para escrever os livros infantis não foi preciso fazer cursos específicos, aliou o seu conhecimento como oceanógrafa à busca, nas redes sociais mesmo, por conteúdos que a inspiram. Criar mais um “Eu amo o mar porque quando eu era CRIANÇA…” talvez não seja tão difícil assim, mas com certeza ajudará a mudar a relação dos adultos do futuro com o oceano.


*1Gostaria de lembrar ou informar você leitor que por definição o Brasil não tem mar (entenda a diferença entre Mar e Oceano, leia aqui), mas com licença do uso da linguagem corriqueira e popular, usaremos aqui ambos como sinônimos.


Referências | Para saber mais

Sobre a entrevistada

Jana del Favero é bióloga, mestre e doutora em oceanografia. Empreendedora, consultora, contadora de histórias e divulgadora científica na plataforma Bate-papo com Netuno. É membro do Comitê de Assessoramento da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável no Brasil.







Sobre as autoras

Débora Camacho Luz é Bióloga, formada pela Universidade Federal de Rio Grande (FURG), membro da Liga das Mulheres Pelo Oceano e bolsista CNPq DTI na Rede Ressoa Oceano. A Ressoa Oceano é uma rede formada pela Liga das Mulheres Pelo Oceano, o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da UNICAMP (LabJor), a Cátedra da Unesco pela Sustentabilidade do Oceano e a Ilha do Conhecimento. Essa rede tem como objetivo promover a ciência e a cultura oceânica para além do litoral e centros de pesquisa, conectando cientistas e jornalistas para a abordagem do tema nos meios de comunicação e investindo em projetos e iniciativas de comunicação sobre o oceano.


Maria Luiza Abieri é Bióloga e Mestre em Ecologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, atua como colaboradora do Bate-Papo com Netuno e bolsista CNPq na Rede Ressoa Oceano. A inserção do Bate-Papo com Netuno à Ressoa Oceano amplia ainda mais a rede, promovendo a divulgação científica e a visibilidade das ciências do mar e cultura oceânica através de informações científicas de qualidade, baseadas em uma linguagem acessível e lúdica.










Esse texto foi produzido em parceria com os projetos Ressoa Oceano e Bate-papo com Netuno.

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