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Quando um sonho tem quilômetros de profundidade: Explorando o mar profundo em um submersível

  • Foto do escritor: Colaboradoras da Liga
    Colaboradoras da Liga
  • há 3 dias
  • 9 min de leitura


Por Olívia Pereira


“Eu já mergulhei três vezes em um submersível.” Esse é o fato curioso que sempre compartilho quando fazemos ice breakers em reuniões. Às vezes sinto como se estivesse me exibindo, mas, ao mesmo tempo, percebo que esse fato diz muito sobre quem eu sou. Acima de tudo, ele resume o quanto me sinto extremamente feliz e realizada por ter vivido essas experiências e o privilégio que foi vivê-las.


Meu nome é Olívia, sou oceanógrafa formada pelo Instituto Oceanográfico da USP, e desde sempre eu soube que eu queria estudar o mar profundo. Eu não sei dizer de onde surgiu essa paixão toda, mas acho que foi uma coisa que foi se desenvolvendo dentro de mim. Eu também dizia para os meus pais, desde pequena, que eu não ficaria no Brasil, que o Brasil é muito pequeno para mim meio irônico, considerando o tamanho do Brasil. E, no fim da graduação, eu agarrei a oportunidade de realizar esses dois sonhos: sair do país e seguir carreira acadêmica como cientista de mar profundo. Com o apoio da minha família e do meu orientador no IO-USP, Prof. Dr. Paulo Sumida, fui aceita no Mestrado em Oceanografia no Scripps Institution of Oceanography, em San Diego, Califórnia. Depois de dois anos buscando financiamento, consegui ingressar também no programa de doutorado em Scripps. E foi durante essa fase que surgiu a oportunidade de mergulhar no submersível Alvin.


Primeiro mergulho no Alvin a 1.000 m de profundidade.
Primeiro mergulho no Alvin a 1.000 m de profundidade.

Mas, antes de continuar essa história, vamos rebobinar um pouco (talvez entregando minha idade) e falar sobre o que são submersíveis, como funcionam e para que precisamos deles. Bom, primeiramente, o mar profundo é um ambiente extremo: fundo (> 200 metros de profundidade), escuro e frio (média de 4°C). Mesmo mergulhadores altamente treinados conseguem atingir apenas algumas centenas de metros de profundidade, ou seja, o ser humano não consegue chegar ao mar profundo, que está muito além desse limite. Então, para estudar esse ambiente, oceanógrafos utilizam diversos equipamentos; alguns coletam água, sedimento e organismos, outros são veículos robóticos, como os AUVs (autônomos) e os ROVs (operados remotamente), que exploram o fundo usando câmeras e braços mecânicos. E, finalmente, existem os submersíveis, veículos ocupados por humanos (em inglês, human-occupied vehicle, HOV). Existem alguns submersíveis ao redor do mundo, e os mais famosos provavelmente são o DSV Alvin (EUA), o Shinkai 6500 (Japão) e o Limiting Factor (EUA) que pode ir até quase 11.000 metros. O Alvin é operado pelo Woods Hole Oceanographic Institute, pode ir até 6.500 metros de profundidade, suporta três pessoas e já completou mais de 5 mil mergulhos – e foi nele que eu mergulhei!


Diferentemente dos ROVs, submersíveis não têm um cordão umbilical os conectando ao navio. Embora haja comunicação por rádio, as decisões de exploração e coleta são tomadas pelos cientistas lá embaixo. Falando em coletas, submersíveis são equipados com uma variedade de instrumentos para coleta, assim como os ROVs, além de muitas câmeras de altíssima qualidade por todos os ângulos. Os mergulhos de submersíveis podem durar até 16 horas, dependendo do veículo (mas todos têm capacidade operacional de pelo menos 3 dias, caso dê algum problema), e não, não existe banheiro. Existem garrafas para urinar e, para as mulheres, um adaptador semelhante a um funil. Nos meus três mergulhos eu consegui segurar a vontade, mas sempre alguém usa as garrafas e isso é absolutamente normal. 


Mas como eu consegui ter essa experiência de mergulhar no Alvin? Minha orientadora do Mestrado e PhD, Dra. Lisa Levin já vinha há anos fazendo pesquisa na Costa Rica, estudando ambientes de mar profundo chamados exsudações de metano, e é uma das pessoas que mais mergulhou no Alvin, com mais de 50 mergulhos! Meu projeto de dissertação era com esses ecossistemas, e então, em 2018, ela me levou como parte do time do laboratório em um cruzeiro no navio de pesquisa R/V Atlantis com o Alvin. Desde que começamos a conversar sobre este cruzeiro, ela me dizia que não conseguia dar certeza de que eu iria mergulhar no Alvin, já que éramos muitos cientistas e íamos ter um número limitado de mergulhos: a prioridade é sempre ter pelo menos um cientista com mais experiência em todos os mergulhos e apenas um first-time diver, ou seja, um iniciante. Então eu já fui para o cruzeiro sabendo que minhas chances eram baixas, afinal eu era apenas uma aluna de primeiro ano de mestrado e estava bem baixo na lista de prioridade para mergulhar. Mas, na última semana do cruzeiro, a Lisa, como a super orientadora que ela é, conseguiu me colocar em um mergulho. E não só isso, ela conseguiu convencer o pesquisador principal que estava comandando o cruzeiro de que eu tinha que mergulhar no Mound 12, a exsudação de metano local da minha pesquisa e também onde encontramos a espécie endêmica de caranguejos yetis da Costa Rica, o Kiwa puravida, o meu animal marinho favorito.


A organização pré-mergulho começa na noite anterior. Na reunião diária, o chefe de pesquisa avisou a todos que o mergulho do dia seguinte era no Mound 12 e seria o Bruce Applegate como piloto, a Shana Goffredi (Occidental College, Los Angeles) como pesquisadora principal, e eu como pesquisadora auxiliar. Nós também recebemos um briefing de como o mergulho deveria ocorrer e todas as tarefas que tínhamos que completar em um mergulho bem exploratório: coletar alguns animais que havíamos visto em outros mergulhos, como os caranguejos yetis e outros que poderiam ser espécies novas, como ouriços, e inclusive um animal que não sabíamos o que era; recuperar um correntômetro que tinha sido deixado em outro mergulho; e o que mais quiséssemos. Era o mergulho perfeito! Sem estresse para coletar experimentos, sem pressão. E foi exatamente assim.


Depois da reunião, eu preparei a minha sacola com roupas quentes extras, deixei ao lado do Alvin e passei o resto do dia contando para todo mundo que mergulharia na manhã seguinte. Me perguntavam se eu estava nervosa e, pelo contrário, eu mal consegui processar as amostras daquele dia de tão animada. E então, no dia seguinte, às 7h00, eu estava de pé, pronta para o mergulho e, depois de ir ao banheiro uma última vez, às 8h00, a buzina do navio tocou avisando que o Alvin estava pronto para os pesquisadores. Eu abracei minha orientadora, subi as escadas até a porta de entrada do Alvin, dei um tchau final para todos no deck do navio e entrei.


O Alvin é pequeno, mas, para os meus 1,60 m de altura, ele é perfeito. Dentro temos dois bancos acolchoados para os pesquisadores sentarem aos lados, onde têm janelas laterais, e o piloto fica sentado no meio com uma janela frontal e outras duas menores ao lado dela. Eu consigo sentar com minhas costas viradas para frente do sub e minhas pernas esticadas no banco, e também de joelhos de frente para a janela frontal. Um fato curioso e engraçado sobre os pilotos do Alvin é que todos eles são altos e só conseguem ficar de pé (e talvez ainda batendo um pouco a cabeça) logo abaixo da porta, onde o Alvin é um pouco mais elevado. Bom, todos a bordo, vamos para a água.


Imagens do Alvin.


Assim que o sub é levantado pelo guincho, nós o sentimos balançar bastante - algumas pessoas inclusive tomam remédio para enjoo por causa desse movimento - e na volta também, quando ficamos boiando na água até recuperarem o sub para o navio. O guincho coloca o Alvin na água e o solta, e ficamos boiando na superfície para mais um round de comunicação entre sub e navio e checar que tudo estava funcionando direitinho. O piloto então toma o controle e começamos a descer. Aos poucos, o navio desapareceu, a água mudou de cor e a luz foi sumindo até restar apenas a escuridão. O Bruce e a Shana estavam conversando como se fosse só mais um dia normal de trabalho. Eu estava em êxtase. Não era nervoso, não era medo. Era mais um “isso está mesmo acontecendo comigo??”. Só de lembrar e escrever sobre esse momento, meus olhos estão se enchendo de lágrimas. E aí, luzes começaram a brilhar pela janela: era um show de bioluminescência! E 1.000 metros depois, vi o fundo do mar profundo pela primeira vez. 


1. Eu e Shana Goffredi, 1.000 m de profundidade;

2. Eu, o piloto Nick Osadcia, e Dra. Maria Emília Bravo, a 4.700 m de profundidade no Alasca;

3. Os caranguejos yeti.


Eu ainda estava um tanto paralisada, pensei que fosse uma pegadinha e que alguém revelaria que ainda estávamos no navio olhando para uma tela. E então o Bruce disse: “E agora?”, e a Shana começou a falar sobre o trabalho que tínhamos que fazer. E foi aí que a ficha caiu e, imediatamente, a cientista dentro de mim tomou conta e eu foquei 100% no trabalho. Nós encontramos o ouriço, os yetis, o correntômetro, e também o animal misterioso, que depois descobrimos ser um poliqueta. Depois de quase 7 horas de mergulho, eu não queria voltar e poderia ficar ainda horas lá embaixo, mas estava na hora de começarmos a subir. Abrimos o lanche que o cozinheiro preparou para a gente, e foi o melhor sanduíche de pasta de amendoim e geleia que comi na minha vida, a 1.000 metros de profundidade! E então subimos. Eu não senti muito frio, eu também consegui segurar a vontade de ir ao banheiro, conseguimos fazer tudo o que tínhamos que fazer, a Shana e o Bruce foram ótimas companhias de mergulho deixando tudo tão leve, e foi realmente a melhor experiência da minha vida. De volta para o deck do navio, todos os cientistas esperam para comemorar o seu primeiro mergulho com um banho de água gelada – é a tradição pós first Alvin dive, e depois você sai correndo para o banheiro! E aí é vida normal de cruzeiro; é tirar as amostras do Alvin, trazer para o laboratório e processar durante a noite para repetir tudo no dia seguinte. 



  1. O balde de água gelada pós first Alvin dive, vestida de caranguejo yeti;

  2. O abraço com a minha orientadora, Dra. Lisa Levin, antes de cada mergulho;

  3. A comemoração após cada mergulho!



O primeiro mergulho no Alvin é sempre um mergulho especial, mas existem outros marcos na carreira de quem mergulha em submersível, e eu tive a sorte de ter mais dois mergulhos depois disso que alcançaram mais dois desses marcos. Meu segundo mergulho, em 2023, foi o meu primeiro PIT dive (mergulho para treinamento de pilotos), no qual eu era a única cientista responsável pelo mergulho ao lado de um piloto sênior e outro em treinamento, uma função normalmente reservada para cientistas mais experientes. Em 2024, fui pesquisadora principal de um mergulho a 4.709 metros no Alasca, durante a primeira campanha científica após a modernização do Alvin para atingir 6.500 metros. Além dos marcos pelo PIT dive e profundidades extremas, esses mergulhos representaram a confiança da minha orientadora no meu trabalho. Esse cruzeiro também aconteceu logo após o acidente com o submersível Titan. Naturalmente havia um sentimento compartilhado entre todos nós, mas em nenhum momento deixei de me sentir segura. Pelo contrário, a equipe reforçava constantemente os rigorosos protocolos de segurança do Alvin.


A vida pós-mergulho no Alvin continua normal, mas de certa forma, você nunca mais é o mesmo. Pode parecer clichê falar isso, mas realmente existe uma diferença muito grande em fazer pesquisa com submersível. Você vê com os próprios olhos e sente o que é viver lá embaixo. Você tem uma perspectiva melhor do tamanho e da distância das coisas. Você vê detalhes que talvez passariam despercebidos com câmeras e outros equipamentos. Isso tudo faz diferença quando você está processando e analisando suas amostras e dados. E isso é muito valioso! Mergulhar em um submersível para mim não é só o privilégio da experiência, mas eu sinto que também consigo fazer uma ciência melhor por isso.


Quando conto essa história, às vezes ainda me pergunto como fui parar dentro de uma pequena esfera de metal no fundo do oceano. Mergulhar em um sub é um privilégio enorme até onde eu sei, eu fui a segunda brasileira a mergulhar no Alvin —, mas também é resultado de muitos anos de estudo, dedicação e de pessoas que acreditaram em mim ao longo do caminho. Eu fui convidada para escrever sobre submersíveis, mas esse texto acabou sendo também sobre sonhos. Sonhos que pareciam grandes demais quando eu era criança no Brasil, mas que, pouco a pouco, se tornaram realidade. Eu continuo sonhando alto e espero que a minha história incentive outras pessoas a acreditarem que, com curiosidade e dedicação, sonhos improváveis também podem acontecer, porque nós somos, sim, capazes.




Olívia Pereira é oceanógrafa, National Geographic Explorer, e atualmente pós-doutoranda no Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI), na Califórnia, Estados Unidos. Sua pesquisa é focada em ecossistemas quimiossintéticos de mar profundo, ambientes únicos sustentados pela atividade de microrganismos, e não pela luz solar e fotossíntese. Ao investigar como os animais do mar profundo estão conectados entre diferentes regiões do oceano e como mudanças ambientais influenciam a biodiversidade desses ecossistemas frágeis, Olívia busca contribuir para a conservação do oceano profundo. Além da pesquisa, dedica-se à divulgação científica para aproximar os mistérios e as maravilhas do mar profundo de pessoas ao redor do mundo através de seu Instagram @seathescience.




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