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Super El Niño 2026: não podemos mais dizer que é surpresa

Foto do escritor: Colaboradoras da Liga
Colaboradoras da Liga
há 10 minutos
5 min de leitura

Por Kamila Camilo


Em 21 de setembro, o governo do Amazonas decretou situação de emergência em todos os 62 municípios do estado. O motivo foi a previsão de chuvas abaixo da média trazida por um El Niño [1]. Infelizmente tem sido assim em 2023, em 2024 e agora em 2026.


Quando uma crise se repete, ela deixa de ser imprevisível e passa a fazer parte do calendário. A pergunta, então, já não é se a seca vai chegar. É por que, seja na mídia ou nos governos, seguimos tratando esse assunto como surpresa.


O El Niño é o aquecimento natural das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera a circulação da atmosfera e muda ventos, chuvas e temperaturas em boa parte do mundo [2]. O nome surgiu há cerca de 200 anos, entre pescadores peruanos que notavam o mar mais quente perto do Natal [3]. O fenômeno foi identificado, portanto, por quem lê o mar todos os dias.


O evento de 2026 promete ser excepcional. A agência americana NOAA estima em 95% a chance de um El Niño "muito forte" nos últimos meses do ano [4], com pico previsto entre outubro e dezembro [5]. No Brasil, o efeito se divide: chuvas e enchentes no Sul, seca, calor extremo e queimadas no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste.


Há, porém, um ponto que não pode ficar de fora. O El Niño não é a causa da crise, ele a amplifica. Um estudo da rede World Weather Attribution sobre a seca amazônica de 2023 concluiu que o risco de seca na região continuará subindo a cada fração de grau de aquecimento, com ou sem El Niño [6]. Ou seja, o que estamos vivendo é um ensaio do que tende a se tornar normal. E, portanto, se não queremos que no futuro a Amazônia vire deserto, precisamos frear a crise climática acelerada pela ação humana agora.


Na Amazônia, o rio é estrada, mercado, posto de saúde e fonte de água. Quando ele baixa, tudo para junto. Nas secas de 2023 e 2024, cidades como Manacapuru, Tabatinga, Itacoatiara e Parintins tiveram dificuldade para receber alimentos, remédios e água potável. Em Itacoatiara, o Rio Amazonas chegou a 83 centímetros em 2024 [7]. Centenas de comunidades ribeirinhas e indígenas ficaram completamente isoladas.


Na costa, os sinais que orientavam a pesca por gerações, como a temperatura da água, a época dos cardumes e o humor das marés, estão deixando de valer. Em Santa Catarina, maricultores de ostras perderam até 90% da produção no último verão, com a água chegando a 34°C. O aquecimento também ameaça a rota da tainha, uma das safras mais importantes da pesca artesanal do Sul [8].


O mar mais quente branqueia os corais, que protegem a costa contra tempestades e erosão e sustentam a renda de pequenos pescadores. E a terra recua: no Ceará, um mapeamento estadual identificou que cerca de 47,5% do litoral está vulnerável à erosão [9]. Para quem vive da pesca, perder a capacidade de ler o mar é perder ao mesmo tempo o trabalho, o alimento e um saber herdado.



O que pode ser feito


Algumas respostas já existem. O Painel El Niño reúne INMET, INPE, ANA, Cemaden, Defesa Civil e Censipam e publica boletins para orientar a prevenção [10]. O governo federal antecipou o planejamento de dragagens e passou a monitorar continuamente o nível dos rios. O Amazonas enviou 167 kits de purificação de água a comunidades ribeirinhas em 2026 [11], o que não supre a demanda que teremos no alto da seca, infelizmente, e o Ceará criou um plano de contingência para a erosão costeira. São passos importantes, mas ainda insuficientes para uma crise que voltou a fazer parte do calendário.


Preparar antes da vazante. Prefeituras sabem quando o rio vai baixar. O abastecimento com alimentos, medicamentos e insumos nas comunidades mais distantes precisa acontecer antes de agosto, com um plano municipal de estiagem e orçamento próprio. Preparar custa menos do que socorrer.


Levar a água tratada até a comunidade. Purificadores, filtros e cisternas que guardam a chuva da cheia são soluções baratas e já testadas. O desafio é escala e manutenção: cada comunidade vulnerável mapeada deveria ter seu sistema instalado e alguém da própria comunidade treinado para cuidar dele.


Trocar o diesel pelo sol. Energia solar com baterias nas comunidades isoladas garante luz, conservação de vacinas, internet para receber alertas e bombeamento de água, sem depender do barco que não passa. É política climática, de saúde e de autonomia local ao mesmo tempo.


Garantir renda quando o clima tira o trabalho. Pescadores, marisqueiras e agricultores familiares perdem o sustento na seca e nas ondas de calor marinho. Um seguro ou auxílio climático acionado automaticamente pelos decretos de emergência evitaria que essas famílias dependessem, todo ano, de cestas básicas e campanhas de doação.


Usar a natureza como infraestrutura. Mangues, restingas, dunas e recifes protegem a costa por mais tempo do que muros e espigões, que muitas vezes apenas empurram a erosão para a praia vizinha. Proteger e restaurar esses ecossistemas pode entrar no plano diretor de cada município costeiro.


Fazer o alerta chegar e ouvir quem lê o território. Os boletins existem, mas o alerta precisa chegar em linguagem acessível, pela rádio comunitária, pelo grupo da associação ou pelo agente de saúde. E o caminho também é inverso: pescadores e ribeirinhos percebem a mudança antes do satélite. Redes de monitoramento comunitário deveriam alimentar os sistemas oficiais, com esse saber reconhecido e remunerado.


Decidir com quem é afetado. Os pesquisadores da World Weather Attribution alertam que comunidades ribeirinhas e indígenas são e continuarão sendo as mais vulneráveis. Elas precisam estar nos comitês de enfrentamento com voz e voto, e não apenas como público de doações.


A escola pode ser um bom ponto de partida. No Amazonas e no Pará, o projeto Escola D'água, do programa Swarovski Waterschool em parceria com a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), atua em cerca de 135 comunidades ribeirinhas e indígenas. A proposta une educação, saneamento básico e acesso à água potável. Em comunidades como Santa Luzia do Jari, a escola foi construída, o saneamento foi instalado e professores foram preparados para ensinar às novas gerações a importância da água. É o tipo de iniciativa que prefeituras e secretarias de educação podem apoiar e multiplicar, porque une acesso à água, saúde e conhecimento do território.


O El Niño de 2026 vai passar. A crise climática, não. Cada comunidade isolada pela seca e cada safra perdida no mar é um aviso de que a adaptação precisa sair da gaveta e entrar no orçamento.



Fontes




 

Kamila Camilo é uma empreendedora social brasileira dedicada a conectar grandes organizações a movimentos de base para impulsionar ações climáticas de impacto. Fundadora do Instituto Oyá e da CreatorsAcademy, lidera uma rede de 120 influenciadores que alcançam mais de 12 milhões de pessoas no Brasil. Kamila é host e idealizadora do videocast Cria Raiz e integra a delegação brasileira do W20. Atualmente, participa dos conselhos dos Instituto Talanoa, Instituto Igarap e Confluentes, além da startup social Arredondar. Também faz parte do Comitê Net Zero do Pacto Global da ONU no Brasil e do Comitê de Impacto da Ambev. Kamila também colabora com a GainForest para impulsionar soluções climáticas baseadas em dados e inteligência artificial.





























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