Blue Mind: por que estar perto da água faz tão bem para a nossa mente?
- Mariana Lopes Campagnoli
- há 5 horas
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Por Mariana Campagnoli
Pov (sigla para point of view, ou ponto de vista): você é uma pesquisadora cuja pesquisa é relacionada ao meio ambiente!
Imagine que você acabou de sair de um dia especialmente cansativo de trabalho. Foram horas analisando dados, lendo artigos e respondendo e-mails, tudo isso sob a pressão constante de prazos que parecem nunca diminuir. Entre reuniões, demandas e a sensação permanente de que sempre há algo a ser feito, sua mente está cheia e seu corpo, cansado.
A vida acadêmica, apesar de fascinante, também pode ser desgastante. Muitas vezes é difícil se manter motivada com a sua pesquisa, mesmo que ela esteja relacionada ao meio ambiente e à conservação da natureza. O ambiente acadêmico é rígido, objetivo e sério. Não há muito espaço para emoção.
Enfim, após o seu dia de trabalho cheio, e no caminho para casa, você decide parar por alguns minutos para observar o pôr do sol na praia. O som das ondas, a brisa do mar e o horizonte tingido de laranja parecem desacelerar seus pensamentos. Pouco a pouco, uma sensação de calma toma conta de você. Por alguns instantes, tudo parece mais leve; você sente paz, alegria e uma satisfação difícil de explicar.
Essa é uma sensação que os pesquisadores chamam de Blue Mind: um estado mental associado à tranquilidade, ao bem-estar e à sensação de conexão provocada pela presença da água. Seja observando o mar, nadando em um rio, tomando banho de cachoeira ou até ouvindo o som da chuva, ambientes aquáticos têm o poder de desacelerar a mente e restaurar nosso equilíbrio emocional.
Para entender melhor o Blue Mind, vamos conhecer o seu oposto: o Red Mind. Esse estado da nossa mente é definido como intenso e acelerado, caracterizado por estresse, ansiedade, medo e talvez até um pouco de raiva e desespero. Trata-se de uma resposta fisiológica ao estresse, moldada ao longo da evolução humana como um mecanismo de sobrevivência.
Os hormônios associados ao Red Mind foram essenciais para que nossos ancestrais pudessem escapar de predadores, encontrar alimento e garantir oportunidades de reprodução. Em outras palavras, eram fundamentais para a vida em ambientes hostis.
O “problema” é que esses mesmos sistemas continuam ativos até hoje na nossa mente, embora agora sejam ativados por situações cotidianas de estresse. Assim, os mesmos hormônios que poderiam ter sido liberados para fugir de um leão no Serengeti são acionados diante de uma apresentação em público ou de uma fala na frente de todos os seus colegas de laboratório. Socorro!
Aí está a importância de nos rodearmos de paisagens naturais que têm o poder de trazer à tona o Blue Mind! Em um período marcado pelo estresse, tecnologias, isolamento, produtividade tóxica, ansiedade e outros distúrbios mentais, o mar, os rios, as cachoeiras e até a chuva podem oferecer um tipo de pausa que o corpo e a mente não sabiam que precisavam.
Em um estudo realizado em 2011, 45 mulheres foram expostas a uma série de vídeos que incluíam comerciais, esquetes do famoso programa estadunidense Saturday Night Live e três clipes com cenários oceânicos: uma tartaruga nadando, uma floresta subaquática de kelp, e um mergulhador submerso.
Então, mediram a resposta cerebral destas mulheres, enquanto assistiam a esses vídeos, usando um eletroencefalógrafo (ou EEG da sigla em inglês). Basicamente, o EEG capta pequenas cargas elétricas geradas nos neurônios do nosso cérebro quando eles estão ativos. Quando grupos de neurônios disparam juntos, eles criam uma “onda” elétrica que pode ser detectada e registrada. Essa resposta cerebral pode ser utilizada para avaliar reações positivas ou negativas e de aproximação ou evitação. Ou seja, o EEG permite “ver” o nível de emoção que as mulheres estavam experienciando enquanto assistiam a determinado vídeo.
As leituras do EEG indicaram que imagens de água evocaram emoções positivas e atenção nas participantes. Curiosamente, o engajamento cognitivo foi significativamente menor quando elas estavam assistindo aos vídeos com água, o que indica que as imagens do oceano funcionaram como um “período de descanso mental” para o grupo.
E esse é apenas um dentre os diversos estudos que mostram os efeitos positivos da água sobre nossa mente!
Em 2012, uma empresa analisou dados do censo de 2001 referentes aos 48,2 milhões de habitantes da Inglaterra naquele período. Os pesquisadores investigaram quantas pessoas que viviam a menos de 50 quilômetros de ambientes costeiros ou estuários relatavam ter uma saúde “boa” (em oposição a “razoavelmente boa” ou “não boa”), comparando-as com aquelas que moravam mais distantes desses ambientes.
A proporção de pessoas que classificou sua saúde como boa foi 1,13% maior nas comunidades localizadas a menos de 50 quilômetros da costa. Relativamente pouco. Mas o resultado mais interessante foi: esse efeito se tornou ainda mais forte entre pessoas de menor nível socioeconômico. Em outras palavras, a proximidade com ambientes costeiros parece funcionar como uma espécie de amortecedor contra parte dos desafios e estresses impostos pela vida cotidiana das pessoas mais desfavorecidas socioeconomicamente.
Os benefícios de viver perto da água não param por aí. Ambientes costeiros também parecem incentivar as pessoas a se movimentarem mais. Um estudo realizado na Austrália mostrou que moradores de regiões próximas ao mar tinham 27% mais chances de praticar níveis de atividade física considerados saudáveis do que aqueles que viviam longe da costa. Difícil recusar uma caminhada à beira-mar ou um mergulho no fim da tarde, não?
Além de terem mais vontade de se exercitar, as pessoas que se exercitam em ambientes naturais relatam mais disposição, sensação de revitalização e emoções positivas, além de menores níveis de tensão, raiva, confusão mental e depressão.
E tem mais: quando a natureza inclui água, os benefícios parecem ser maiores do que os observados em outros ambientes. Caminhar, correr ou praticar qualquer atividade física próximo a rios, lagos, cachoeiras ou ao mar proporciona ganhos mais expressivos para a autoestima e o humor do que realizar os mesmos exercícios em áreas verdes sem a presença de água. Além disso, estar em ambientes marinhos ou costeiros pode aumentar os níveis de felicidade das pessoas até cerca de 5,2%!
Mas… por que será que a água tem esse efeito sobre a nossa espécie? Talvez essa conexão seja muito mais antiga do que imaginamos. Ao longo da evolução humana, rios, lagos e regiões costeiras representavam muito mais do que belas paisagens: eram fontes de água potável, alimento e segurança.
Durante milhares de gerações, nossos ancestrais viveram próximos à água, dependendo dela para sobreviver. É possível que essa longa história compartilhada tenha moldado não apenas onde vivíamos, mas também como nos sentimos. Afinal, se a proximidade da água significava maiores chances de encontrar recursos essenciais e permanecer vivo, faz sentido que nosso cérebro tenha evoluído para associar esses ambientes a sensações de segurança, conforto e bem-estar.
Talvez seja por isso que, ainda hoje, um rio tranquilo, uma cachoeira ou a imensidão do oceano tenham o poder de nos fazer parar, respirar fundo e sentir que estamos exatamente onde deveríamos estar!

Mariana Campagnoli é bióloga, mestre e doutora em Ecologia e Recursos Naturais pela UFSCar. No momento, é Pós-Doutoranda pela UNESP Rio Claro, trabalhando com o papel dos dispersores de sementes na restauração ecológica. Já atuou como coordenadora, e agora atua na coordenação coletiva e como produtora de conteúdo para a newsletter da Liga das Mulheres pelo Oceano.
Referências
NICHOLS, Wallace J. Blue Mind: The Surprising Science That Shows How Being Near, In, On, or Under Water Can Make You Happier, Healthier, More Connected, and Better at What You Do. New York: Little, Brown and Company, 2014.