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Como a vida embarcada me ajudou a superar o medo e a ansiedade

  • Foto do escritor: Colaboradoras da Liga
    Colaboradoras da Liga
  • 3 de set. de 2025
  • 6 min de leitura

Por Tatiana Zanardi


A decisão de viver no mar, a bordo do Ocean Eyes - um catamarã a vela de 43 pés, sul-africano, anos 2000 - foi, sem dúvida, um dos maiores desafios da minha vida. Em 2011, saí da minha zona de conforto, deixei uma carreira sólida de 20 anos na área de TI em São Paulo, e me lancei ao desconhecido. É impossível embarcar nessa jornada sem enfrentar nossos próprios medos, mas é exatamente isso que tornou o processo tão transformador. Viver a bordo me ensinou a conviver com incertezas, a manter a calma diante de situações adversas e, mais importante de tudo, a confiar em mim mesma.


Tatiana com o catamarã Ocean Eyes, na ilha de St. Croix, Caribe
Tatiana com o catamarã Ocean Eyes, na ilha de St. Croix, Caribe

No início, parecia impossível dissolver a ansiedade e o medo. Apesar de todo o planejamento, as primeiras semanas no barco trouxeram questionamentos inesperados: e se o mastro cair no meio de uma travessia? E se uma tempestade nos pegar desprevenidos? E se simplesmente eu perceber que não sou forte o suficiente para essa vida? Mas aos poucos fui entendendo que cada desafio era, na verdade, uma oportunidade de crescimento pessoal.

 

A vida embarcada força você a abraçar o presente. O oceano é imprevisível, e o barco – assim como a vida – não espera você planejar tudo. Às vezes o vento muda e você precisa ajustar as velas. Às vezes a situação parece completamente descontrolada, mas respirar fundo, analisar as variáveis e tomar medidas passo a passo tornam possíveis até os maiores desafios. Essa rotina nos ensina resiliência prática, a cultivar a paciência, e a manter o foco, mesmo sob pressão.

 

O medo no mar é real, mas também é um mestre muito eficaz. Ele te ensina a importância de preparação, mas também te lembra que nem tudo pode ser controlado. E está tudo bem. Lidar com a ansiedade não é eliminá-la totalmente, mas aprender a surfar sua onda.


 

Ocean Eyes ancorado em Peter Island, nas Ilhas Virgens Britânicas
Ocean Eyes ancorado em Peter Island, nas Ilhas Virgens Britânicas


Lições práticas do mar: o aprendizado a partir da realidade


Algo que sempre me impacta é como nada na vida a bordo é teórico. Cada situação exige uma resposta prática, imediata, baseada na realidade daquele momento. Quando enfrentamos, por exemplo, uma pane elétrica no meio de uma travessia ou uma ancoragem tomada por uma tempestade no meio da noite, não há espaço para pânico. Você precisa identificar o problema, usar as ferramentas que tem, avaliar os danos e resolver com o que está ao alcance. E essas lições do dia a dia têm sido incrivelmente eficazes para superar a ansiedade.

 

Um dos momentos mais marcantes para mim foi quando estávamos velejando de Bonaire para Los Roques, de madrugada, quando o vento aumentou, o barco atravessou uma onda e a vela mestra mudou de lado, deixando o barco em uma posição perigosa em relação ao mar. Eu estava na cabine descansando para meu turno, e senti o tranco. Tínhamos prendido a retranca para evitar que isso acontecesse, mas a onda tirou o barco do rumo e a vela mestra aquartelou. Corri pra fora e vi o Alcides com a faca de pão na mão correndo para cortar o cabo, porque não conseguia desfazer o nó do cabo que impedia que a retranca trocasse de lado bruscamente, o que poderia causar um problema sério na mastreação. Enquanto ele soltava a vela, fui para o timão tentar ajustar o rumo, porque o piloto automático parou de trabalhar e apitava loucamente. Neste momento veio o pânico, porque estávamos perto da costa de Aves, uma ilha venezuelana, e eu não conseguia lembrar o rumo que devíamos ir. Branco total. Ou melhor, breu total. Ondas, vento forte, medo do Alcides cair na água enquanto soltava a vela, medo de bater nas pedras. Calma, respira, pensa! Lembrei o rumo e coloquei o Ocean Eyes em curso novamente. Ajustamos as velas, reforçamos os cabos e estabilizamos o barco. Quando a situação se acalmou, percebi que havia enfrentado algo que antes parecia impensável. Não só sobrevivemos àquele momento desafiador; saí dele mais forte do que imaginei ser possível.

 

É por isso que a vida embarcada é tão eficaz no enfrentamento do medo e da ansiedade – você não tem tempo para ficar preso em pensamentos paralisantes. A prática constante de resolver problemas, aprender novas habilidades e se adaptar às condições do mar cria uma mentalidade resiliente.

 

Tatiana e Alcides velejando no Ocean Eyes no Mar do Caribe
Tatiana e Alcides velejando no Ocean Eyes no Mar do Caribe

Superando o medo também debaixo d’água

 

Algumas das maiores transformações da minha vida aconteceram também debaixo d’água. O mergulho autônomo, especialmente em situações desafiadoras como correntes fortes, naufrágios profundos e, encontros com tubarões, se tornou não apenas uma paixão, mas também uma ferramenta poderosa no meu processo de autoconhecimento e superação do medo e da ansiedade. Mergulhar em ambientes que inicialmente me enchiam de receios foi o portal para abandonar antigos preconceitos e me fortalecer emocionalmente, enquanto construía uma relação de respeito e fascinação pela vida marinha.

 

Antes de qualquer mergulho com tubarões, me comprometi a aprender tudo o que pudesse sobre eles. Ao contrário do que tantos acreditam, não são predadores impiedosos que nadam à espreita de qualquer ser humano. Na verdade, são animais majestosos, elegantes e fundamentais para a saúde dos ecossistemas marinhos. Mais de 100 milhões de tubarões são mortos anualmente pelas mãos humanas, seja pela pesca predatória ou por práticas como a retirada de suas nadadeiras (finning). Esse conhecimento despertou em mim algo muito mais forte do que o medo: o desejo de protegê-los e lutar contra os mitos que colocam suas espécies em risco de extinção.

 

Compreender o comportamento dos tubarões foi o primeiro passo para ganhar confiança. Eles não atacam de forma indiscriminada; como qualquer outro animal, estão reagindo ao ambiente ao seu redor. Perceber isso foi libertador. Aprendi que manter a calma, respeitar o espaço deles e entender como eles se comunicam com o corpo são as chaves para um mergulho seguro. Essa preparação mental fez com que as experiências ao lado desses gigantes do mar fossem marcadas mais por admiração do que por ansiedade.

 

Lembro-me vividamente do meu mergulho com tubarão-tigre na África do Sul. Eu estava nervosa, claro. Mas à medida que uma fêmea gigante aparecia à distância, senti algo diferente: uma calma reverente. Esses animais se movem com uma “dança” que é quase hipnótica. Foi neste momento que o medo foi substituído pelo respeito e pela consciência de que estar ali era um privilégio.




Tatiana filmando o grande tubarão martelo em Bimini, Bahamas
Tatiana filmando o grande tubarão martelo em Bimini, Bahamas

 


Transportando o aprendizado do mar para terra

 

Inspirada nessas vivências, comecei a desenvolver mentorias práticas para ajudar mulheres a aplicarem os aprendizados da vida a bordo em suas próprias jornadas, mesmo que não estejam no meio do oceano. O grande diferencial desse processo é a utilização de situações reais e simulações práticas, que forçam o participante a sair da teoria e enfrentar desafios de forma ativa.

 

Por exemplo, em uma mentoria, costumo criar paralelos entre um episódio do mar – como lidar com uma tempestade repentina ou uma falha no barco – e as situações do cotidiano que muitas vezes geram medo ou ansiedade. Essa conexão ajuda a trazer clareza para o participante:


• Primeiro, identificamos juntos como o medo ou a ansiedade estão se manifestando. Será que é o medo de falhar, de perder o controle ou de não ser suficiente?

• Depois, criamos situações simuladas ou reais para lidar com esses sentimentos, usando métodos da vida embarcada: como reagir ao inesperado, como respirar e priorizar o próximo passo, e como fortalecer a autoconfiança ao resolver o problema.

• Essas mentorias também incluem aprendizados práticos, como a importância de planejamento e antecipação (sem obsessão pelo controle), estratégias para manter o foco em ambientes de pressão, e, claro, como celebrar vitórias, por menores que possam parecer.

 

Essas práticas são um convite para sair do comodismo mental e emocional, enfrentando os “oceanos internos” com coragem e propósito. Transformar o medo em aprendizado é um processo que exige prática, mas que também nos leva a um novo nível de força interior. Assim como a vida no Ocean Eyes me transformou, sei que essas lições práticas podem transformar outras pessoas também.

 

No fim, o que aprendi é que o medo e a ansiedade nunca desaparecem completamente – mas podemos aprender a navegar por eles. O segredo está em fazer as pazes com a incerteza, abraçar o desconhecido e confiar em nossas capacidades, tanto no mar quanto na vida. Afinal, só enfrentando a tempestade é que se aprende a velejar. 🌊 



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Tatiana Zanardi é capitã amadora e responsável pela culinária sustentável do catamarã Ocean Eyes. É mergulhadora de resgate e cinegrafista submarina, especialista em tecnologia e marketing, com 20 anos de vivência em grandes editoras. Co-autora do livro “Mulheres Velejando pelo Mundo” e autora do livro “Cardápio a Bordo”. Vive a bordo do catamarã a vela Ocean Eyes com Alcides Falanghe desde 2011, e juntos trabalham na produtora Ocean Eyes Productions, no projeto ambiental Oceano Vivo, na plataforma de cultura oceânica Oceanopedia, no programa de viagens com propósito Ocean Eyes Experience e no Movimento Cook 4 Life. Fazem parte da plataforma de turismo sustentável e responsável One Planet Network, da UNEP (United Nations Environment Program).










 
 
 

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