Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha
- Colaboradoras da Liga

- há 4 horas
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Por Lorena Sanches, Cacilda Rocha, Josiane Alves, Barbara Pinheiro
Dia 25 de julho nos encontramos para celebrar o “Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha”, data instituída no ano de 1992 durante o “1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas", realizado em Santo Domingo, República Dominicana, Caribe. À época, mais de 300 representantes oriundas de 32 países se uniram em um compromisso coletivo: denunciar as violências históricas sofridas pelas mulheres negras e de matrizes africanas e indígenas. Nesse encontro, foram definidas inúmeras estratégias de articulação coletiva com o intuito de fortalecer o enfrentamento e dar visibilidade a todas as mulheres negras, latino-americanas e caribenhas, evidenciando seus diversificados contextos de violações e vulnerabilidades. Assim, teve-se o objetivo central de promover uma efetiva transformação social alicerçada nos principais pilares desse movimento feminino de engajamento global, quais sejam, a liberdade, a equidade e a resistência. Desta forma, para além de uma data comemorativa que precisamos consagrar e memorizar em nossas mentes e corações, essa data nos lembra que, nossa luta feminina na resistência contra o racismo e o sexismo continua diariamente em todos os espaços, inclusive nas ciências oceânicas!
No contexto latino-americano e caribenho, as mulheres negras seguem enfrentando desigualdades estruturais que atravessam o acesso à educação, ao mercado de trabalho, à representação política e à proteção contra a violência. Por isso, esta data também nos convoca a reconhecer a importância da interseccionalidade, compreendendo que racismo e sexismo se articulam de maneira específica sobre os corpos e as trajetórias das mulheres negras. Celebrar este dia é, portanto, reafirmar nosso compromisso com a justiça social, a equidade racial e de gênero, e com a construção de políticas públicas que promovam dignidade e bem-viver. Neste dia não podemos deixar de lembrar de Tereza de Benguela, mulher negra que uniu quilombos e povos tribais (no século XVIII, ainda nos idos anos de 1770), e que se tornou o ícone nacional da luta e da resistência antirracista. Sua saga inabalável enfrentou destemidamente as inúmeras violações e crimes decorrentes da misoginia, do racismo, do machismo e do classismo, esse, muitas vezes simbólico e perpetuado pelo ódio nas sociedades contemporâneas. Frente a esse clamor e consolidando a luta antirracista, a Lei Federal nº 12.987, de 2014, institui no território brasileiro a data de 25 de julho para celebração do ‘Dia Nacional de Tereza de Benguela’ em união à comemoração global do ‘Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha’.
Nós, mulheres negras (pretas e pardas de matrizes africanas e indígenas), membras do GT – Mulheres Negras da Liga das Mulheres pelo Oceano, celebramos esta data reafirmando toda nossa histórica resistência, nosso pertencimento e nosso compromisso com uma ciência verdadeiramente justa, plural, decolonial e diversa, na qual o acesso ao conhecimento seja garantido a todas, independentemente de gênero, crença e/ou raça/etnia. Reforçamos, também, nossa luta cotidiana por espaços e oportunidades reais no meio acadêmico e científico-profissional, onde sejam reconhecidos o dinamismo e a importância de nossas contribuições para a valorização da ciência produzida por mulheres pretas e pardas, as quais, ainda tantas vezes, evidenciam sua invisibilidade em ambientes historicamente dominados por homens brancos, pelo machismo e misoginia de toda espécie.
Honramos, neste dia, as mulheres cientistas de todos os mares, as botânicas, as ambientalistas, as ecologistas, dentre tantas outras especialidades que, com coragem, rigor e sensibilidade, cotidianamente constroem saberes essenciais para compreender e proteger a vida em todas as suas formas. Suas trajetórias revelam que ciência também é território de resistência, de ancestralidade e de futuro. Quando mulheres negras ocupam a pesquisa, a docência e a liderança científica, ampliam-se os horizontes do conhecimento e fortalece-se o compromisso com a justiça socioambiental.
Ao longo do mês de julho no Brasil, é comemorado o “Julho das Pretas”, período no qual se multiplicam marchas, palestras, rodas de conversa, apresentações culturais e festivais. Nesses espaços de debate e trocas de saberes, reafirmamos o protagonismo das mulheres negras e a urgência de enfrentar as desigualdades ainda persistentes, como a disparidade salarial, a sub-representação política e a violência interseccional, especialmente contra mulheres negras LGBTQIAPN+. Nesse contexto, a segunda edição do “Projeto Sarau”, que é uma iniciativa deste GT (disponível em: https://www.youtube.com/live/HGDElAh8beg?si=xdzz-sbzB3D_Lzx-), foi realizado em comemoração a esta data, que constituiu um espaço de encontro, expressão e celebração da força das mulheres negras. É uma proposta para reafirmar, por meio da arte, da poesia e da partilha de experiências, a importância de honrar e comemorar nossa ancestralidade, da resistência e do protagonismo negro na construção de caminhos mais justos, plurais e acolhedores na sociedade brasileira.
Lembramos que cabe a cada uma de nós atuar com urgência para enfrentar as desigualdades persistentes, tendo em vista que ainda existem profundas disparidades estruturais e salariais, dentre tantas outras, além da sub-representação nas diferentes esferas socioeconômicas. Nessa premissa, seguimos cotidianamente na luta para que nossas vozes sejam ouvidas e que nossas conquistas sejam valorizadas. Ainda, que nossas pesquisas sejam reconhecidas e, sobretudo, destaque-se que também queremos ocupar efetivamente nossas posições e funções na sociedade. Que a data de 25 de julho nos lembre da força de nossas ancestrais e nos sirva de inspiração para seguir juntas, buscando pertencimento, acolhimento e emancipação. Que sigamos sempre unidas, abrindo caminhos e conquistando, com dignidade e sabedoria, o espaço que nos é de direito: o espaço de um intelecto ancestral, precioso e indispensável para as ciências oceânicas, marinhas, ambientais e para o mundo.


O Grupo de Trabalho das Mulheres Negras da Liga foi criado em Abril de 2023, fruto de um desejo antigo da Liga, colocado em prática por Bárbara Pinheiro (membro da secretaria executiva, do GT Década do Oceano e coordenadora do GT Mulheres Negras)! É um grupo comprometido com a promoção da igualdade racial, étnica, de gênero e a conservação dos ecossistemas oceânicos. Seu objetivo principal é criar um espaço de união, compartilhamento, aprendizado e ação para mulheres negras que compartilham o interesse pela preservação do oceano e pela justiça social, sejam elas de quaisquer setores da sociedade, sem distinção. O grupo visa promover discussões, ações e projetos que abordem temas relacionados à justiça ambiental, racismo ambiental, étnico, de gênero, e suas relações com o oceano e a zona costeira.



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