Pelo direito de andar sobre o ombro de gigantes
- Colaboradoras da Liga

- há 1 dia
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Por Giovanna Destri
Quando você imagina uma pessoa que trabalha com pesquisa, qual a primeira imagem que vem à sua mente? Para além das características físicas, o que você acha que essa pessoa faz quando sai de casa e vai ao trabalho? Isaac Newton popularizou a metáfora de “caminhar sobre ombros de gigantes” ao reconhecer que suas grandes descobertas só foram possíveis porque teve a oportunidade de seguir com o trabalho de intelectuais anteriores a ele, valorizando a construção coletiva do conhecimento.
Quando os resultados da pesquisa acadêmica alcançam a sociedade, nem sempre as pessoas que passaram anos trabalhando para que eles existissem são vistas. Conhecemos a vacina, mas não a doutoranda que passou incontáveis horas realizando os experimentos que contribuíram para desenvolvê-la. Conhecemos o remédio, o fertilizante das plantações, a previsão do clima no jornal ou um documentário de vida selvagem, mas raramente pensamos na enorme cadeia de formação científica que existe antes de uma informação chegar até nós. De vez em quando uma pesquisa viraliza, um cientista sai nas manchetes e todo mundo fica fascinado! A pesquisa brasileira de ponta realizada dentro de universidades públicas no algoritmo de todo mundo! e, eventualmente, voltamos a falar sobre investimento em ciência e cortes de orçamento. O mais chocante é que boa parte do trabalho cotidiano que sustenta a produção científica é realizada por estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado e por pesquisadores de pós-doutorado. Bolsa de pesquisa não é prêmio: é recurso que permite que pesquisadoras em formação se dediquem ao trabalho científico.
Existe, sim, um enorme privilégio em poder dedicar alguns anos da vida à formação acadêmica. Mas a formação de uma pesquisadora acontece justamente enquanto ela faz pesquisa. Nós aprendemos trabalhando, ganhamos experiência enquanto conduzimos nossos projetos e, aos poucos, adquirimos autonomia e maturidade para fazer perguntas cada vez melhores. O retorno à sociedade é um compromisso com o investimento que permite a realização da pesquisa, não pelo valor monetário, mas por ser algo que acreditamos e nos faz permanecer nessa carreira. A cobrança por esse retorno existe de várias maneiras: durante a pós-graduação principalmente (mas não unicamente), não basta assistir a aulas e escrever uma tese. Espera-se que publiquemos artigos, participemos de congressos, aprendamos novas técnicas, estabeleçamos colaborações, tenhamos experiência docente, façamos divulgação científica, construamos redes e, assim, uma carreira cada vez mais competitiva, e internacionalizada.
É justamente por isso que as recentes mudanças anunciadas pela FAPESP para as Bolsas Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE) provocaram tanta reação na comunidade acadêmica. A modalidade permite que bolsistas realizem parte de sua formação em instituições de pesquisa fora do Brasil, mas as novas regras restringem as condições de acesso e permanência nesse tipo de experiência. É tudo uma grande contradição que já existe na formação científica brasileira desde a época que se extinguiu o Ciência Sem Fonteiras. Ao mesmo tempo em que somos incentivados (e cobrados) a construir carreiras cada vez mais internacionalizadas, as oportunidades financiadas para fazer justamente isso se tornam mais restritas.
Já se foi a época em que “ir para o exterior” era um diferencial no currículo de alguém. O próprio sistema científico acadêmico estimula colaborações internacionais e valoriza essas experiências em diferentes etapas da carreira. As expectativas decolam: “publique mais!” “colabore mais!” “apresente mais!” “internacionalize mais!”, enquanto algumas das oportunidades disponíveis para alcançá-las parecem diminuir. Quem consegue pagar visto, passagem, moradia, seguro, alimentação, taxas e meses de permanência em outro país com recursos próprios? Se a resposta for “quem quer dá um jeito”, não estaremos selecionando apenas quem tem competência e ***mérito*** para competir. Estaremos, em alguma medida, selecionando também quem con$egue pagar para competir.
Essa discussão é o cerne de quem defende uma ciência verdadeiramente diversa. Se queremos proporcionar acesso a espaços de pessoas das mais diversas realidades socioeconômicas, de gênero e etnia à espaços de liderança e de voz, não basta comemorar apenas quando elas atravessam a porta da universidade. É preciso garantir condições para que consigam construir as carreiras que depois serão exigidas delas. Financiar uma jovem pesquisadora não significa apenas investir em uma conquista no Linkedin ou um tópico do Lattes. Significa formar alguém que poderá trazer novas técnicas, estabelecer redes de pesquisa, formar outras pessoas e produzir conhecimento que retorna à sociedade. A Ciência é feita por muitas mãos. Reconhecer esse trabalho e garantir condições para que ele continue não é caridade. É política pública.

Giovanna é bióloga pela Universidade Federal de Santa Catarina e Mestra em Oceanografia pela mesma instituição. Vive o melhor dos mundos seco e sub, conciliando a carreira acadêmica com a de instrutora de mergulho. Atualmente se dedica ao Doutorado no Instituto Oceanográfico da USP e estuda os efeitos das mudanças climáticas em ambientes coralinos do Atlântico Sul. É coordenadora assistente do maior programa de monitoramento de branqueamento de corais do Brasil realizado pela Rede de Pesquisa do Projeto Coral Vivo.



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