Elas cruzam o mundo… e adoram uma prainha!
- Colaboradoras da Liga

- há 1 hora
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Por Victoria Maria Reis de Souza
Todo ano, milhões de aves migratórias sobrevoam continentes, percorrem milhares de quilômetros e conectam o mundo!
No dia 09 de maio de 2026, comemoramos o Dia Mundial das Aves Migratórias! São aves que viajam entre áreas reprodutivas, onde fazem seus ninhos e criam seus filhotes por um período determinado, para áreas não-reprodutivas, onde descansam, se alimentam e passam a maior parte da sua vida [1]. As aves migratórias realizam essas viagens de forma cíclica, percorrendo anualmente rotas migratórias espalhadas por todo o mundo [2].
Para celebrar o dia dessas viajantes excepcionais, convido vocês a conhecerem um pouco mais sobre um dos grupos de aves migratórias mais fascinantes que existem: as aves limícolas!

Limícolas? Sei bem, não é uma palavra que se lê ou escuta todos os dias. Mas essa terminologia pertence a um dos maiores e mais diversos grupos de aves do mundo!
Se você já caminhou pela praia e viu pequenos bandos de aves correndo na beira da linha d’água, indo e voltando com as ondas, provavelmente já encontrou algumas aves limícolas por aí. Elas estão associadas a ambientes alagados e lamacentos, podendo ser encontradas em ambientes costeiros e próximas a corpos hídricos como rios e lagoas internas [3].
Bem camufladas, discretas e rapidinhas, quase sempre em movimento. Sendo um dos grupos de aves mais diversos, podemos observar espécies de aves limícolas com diferentes formas e tamanhos. Algumas com quase 40 cm de comprimento, como o Fuselo (Limosa lapponica), espécie recordista mundial em “migração mais longa sem paradas realizada por uma ave” (reconhecida pelo Guinnes Book [4]). Outras, somente com cerca de 15 cm de comprimento, como o Maçarico-rasteirinho (Calidris pusilla), espécie encontrada ao longo de quase todo o litoral brasileiro, que está, infelizmente, ameaçada de extinção.

A maioria dessas aves viajantes se reproduz no Ártico. Após o período reprodutivo, eles cruzam países até chegar aqui, no litoral brasileiro, onde passam a maior parte do tempo descansando e se alimentando. Além de atrair anualmente milhões de turistas, a zona costeira do nosso país abriga bandos de milhares de aves limícolas migratórias. As nossas praias, estuários e manguezais são, para além de paisagens cênicas, o lar das aves limícolas migratórias, sendo ambientes essenciais para a sua sobrevivência.
Trabalhar com essas aves muda a forma como a gente enxerga o litoral. O bater das suas asas conecta lugares espalhados pelos continentes a uma rede hemisférica ecossistêmica e integrada. A praia deixa de ser só um espaço de lazer e passa a ser também um ponto de conexão global!
Ao viajar por tantos lugares, é de se imaginar que essas aves estejam também suscetíveis a diversas ameaças e distúrbios em cada local por onde passam. A intensificação da ocupação e transformação da zona costeira brasileira nas últimas décadas tem implicações diretas para a conservação das aves limícolas migratórias. A alteração de habitats, a urbanização e as mudanças provocadas nos processos costeiros reduziram não apenas a extensão, mas também a qualidade funcional da zona costeira. Essas mudanças afetam a disponibilidade de alimento e o uso dos habitats pelas aves limícolas migratórias. Considerando que essas espécies dependem de uma rede de áreas ao longo de suas rotas migratórias, mudanças ambientais a níveis locais podem gerar efeitos cumulativos em escala hemisférica, comprometendo a reposição energética, a sobrevivência e o sucesso reprodutivo dessas espécies. Por esses e diversos outros fatores, as aves limícolas são atualmente um dos grupos de aves mais ameaçados de extinção do mundo [5][6][7].

Olhando para 2026, essa temática ganha ainda mais relevância. A COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS) reforçou a importância de ações coordenadas para a conservação de aves migratórias, com destaque para as aves limícolas nas Américas. Entre os principais pontos discutidos, esteve a necessidade de proteger áreas-chave ao longo das rotas migratórias e fortalecer a cooperação entre países, considerando que essas espécies dependem de uma rede de habitats distribuída em diferentes regiões.
Celebrar o Dia Mundial das Aves Migratórias é, para mim, reconhecer essa necessidade de conexão. É olhar para essas espécies e perceber que elas carregam em suas asas histórias que atravessam países, continentes e oceanos. Ao mesmo tempo, é compreender que iniciativas locais voltadas à conservação das espécies e de seus habitats são fundamentais para a conservação em escala global. Afinal, mesmo depois de viajar milhares de quilômetros, elas ainda encontram, no nosso litoral, um lugar para ficar.
Diversas instituições ao redor do mundo se mobilizam para celebrar o Dia Mundial das Aves Migratórias, promovendo ações de conservação e sensibilização sobre a importância dessas espécies incríveis. Se você quer saber mais sobre a iniciativa, e até descobrir se há atividades acontecendo na sua cidade ou estado, conheça o site oficial: https://www.migratorybirdday.org/
Bons voos!

Victoria Maria Reis de Souza é Bióloga e mestre em Ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). É ornitóloga e atua como Técnica de Monitoramento e Pesquisa no Projeto Aves Migratórias do Nordeste, desenvolvido pela ONG Aquasis. Possui experiência em monitoramento, pesquisa e desenvolvimento de projetos em ambientes costeiros, com foco na conservação de aves limícolas. Desde o início da sua formação desenvolve pesquisas com ênfase em ecologia reprodutiva e de populações.
Referências
[1] SOMENZARI, Marina; AMARAL, Priscilla Prudente do; CUETO, Victor R.; GUARALDO, André de Camargo; JAHN, Alex E.; LIMA, Diego Mendes; LIMA, Pedro Cerqueira; LUGARINI, Camile; MACHADO, Caio Graco; MARTINEZ, Jaime. An overview of migratory birds in Brazil. Papéis Avulsos de Zoologia, [S.L.], v. 58, p. 3, 20 fev. 2018. Universidade de São Paulo. Agência de Bibliotecas e Coleções Digitais. http://dx.doi.org/10.11606/1807-0205/2018.58.03.
[2] Boere, G.C. & Stroud, D.A. 2006. The flyway concept: what it is and what it isn’t. Waterbirds around the world. Eds. G.C. Boere,C.A. Galbraith & D.A. Stroud. The Stationery Office, Edinburgh, UK. pp. 40-47 (PDF) The Flyway Concept: What it Is and What it Isn’t. Available from: https://www.researchgate.net/publication/268036693_The_Flyway_Concept_What_it_Is_and_What_it_Isn't
[3] ICMBio - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Sumário Executivo do Plano de Ação Nacional para Conservação das Aves Limícolas Migratórias. Brasília: ICMBio, 2013.
[5] MORAES, Antonio Carlos Robert. Contribuições para a gestão da zona costeira do Brasil: elementos para uma geografia do litoral brasileiro. São Paulo: Annablume, 2007.
[6] Studds, C., Kendall, B., Murray, N. et al. Rapid population decline in migratory shorebirds relying on Yellow Sea tidal mudflats as stopover sites. Nat Commun 8, 14895 (2017). https://doi.org/10.1038/ncomms14895
[7] NORTH AMERICAN BIRD CONSERVATION INITIATIVE (NABCI). The State of the Birds 2025. [S.L.], 2025. Disponível em: https://www.stateofthebirds.org/2025/



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