• Isabela Moreira

Liga na Década do Oceano Um Oceano Seguro, com Fernanda Azevedo

Atualizado: Jul 13

Desafio 7: um Oceano Seguro Garantir um sistema sustentável de observação dos oceanos em todas as bacias oceânicas que forneça antecipadamente, e a todos os utilizadores, informações e dados acessíveis que permitam implementar ações. 1. Qual sua formação e sua atividade atual?

Olá, pessoal! Eu sou Fernanda Azevedo, bióloga marinha, zoóloga e especialista em esponjas calcárias. Minha produção científica é dedicada às questões da sistemática, biodiversidade e biogeografia dessas esponjas, tendo já contribuído com a descrição de 38 espécies para a ciência. Atualmente, atuo como responsável técnica e coordenadora do Programa BioGeoMar, apoiado pela Fundação Grupo Boticário. Sou pesquisadora integrante da equipe do Laboratório de Biologia de Porifera, do Instituto de Biologia da UFRJ e colaboradora no Espaço Ciência Viva na temática Cultura Oceânica.

2. Qual seu vínculo com o oceano e como ele começou?

O que eu posso dizer sobre a minha história com o Oceano? Foi, decerto, um encantamento à primeira vista, porém com poucos encontros até a vida universitária. Eu não tive a oportunidade de estabelecer um vínculo cotidiano com o mar durante a infância por morar um tanto afastada dele, mas lembro de visitar a praia com a família algumas vezes ao longo do ano. Essa aproximação mais intensa com o oceano só aconteceu durante os estudos de graduação na UFRJ, no curso de Ciências Biológicas, onde optei pelo bacharelado em Biologia Marinha. Antes disso, foram apenas encontros esporádicos, porém bastante intensos e cheios de estímulos agradáveis – a cor, o grão de areia, o vento, a água, o sabor, o cheiro, o calor, o frio – tudo isso resultava em uma explosão de sensações e respostas fisiológicas, fazendo aflorar os sentimentos de alegria, pertencimento e a consciência de estar viva. Apesar dessa vivência não ter sido tão intensa durante boa parte da minha vida, mesmo assim, ela foi marcante e me deixou com vontade de conhecer mais. Além disso, eu sempre fui uma apaixonada pela natureza, pelos animais; e com a mente inquieta e indagativa que possuo, eu frequentemente estava buscando por respostas e sentido para tudo que me deixasse intrigada, como a própria origem e fim da vida. Para mim, o oceano é sinônimo de energia, força, movimento, mudança, vida – afinal, é de onde ela surgiu!


3. Quais foram suas impressões por ter participado da construção da discussão da participação do Brasil na Década do Oceano?

Eu me senti bastante privilegiada de ter sido selecionada, de ter participado, e mais ainda, de ter tido voz nesse processo coletivo da iniciativa da Década do Oceano Brasil durante a Oficina Região Sudeste. Eu fiquei positivamente impactada com toda a estrutura organizacional, de coordenação e boas práticas ao longo de todo evento. Eu colaborei mais ativamente com o plano de trabalho do GT II: Um Oceano saudável e resiliente, uma vez que estou atuando como coordenadora de um programa que visa gerar conhecimento científico sobre os padrões e vieses em biodiversidade e biogeografia da biota marinha brasileira, e apontar estratégias para melhorar os inventários e a conservação dessa biodiversidade marinha. Eu tenho acompanhado grande parte dos eventos nacionais e alguns internacionais sobre a Década do Oceano e, tento, na medida do meu alcance, participar ativamente de alguns desses movimentos como por exemplo o da Liga das Mulheres pelo Oceano, do GAM-SE (Grupo de Apoio à Mobilização – Sudeste) e, mais recentemente, a convite do ECV (Espaço Ciência Viva) colaborar com a série sobre o Oceano que está em fase de construção.


4. Nos conte sobre sua atuação sobre observação do oceano:

Uma breve apresentação do Programa BioGeoMar

O Programa BioGeoMar é um projeto de pesquisa científica de média duração (2019-2023), dedicado ao ambiente marinho e inserido nas linhas temáticas base de dados, modelagem da biodiversidade e modelagem climática, apoiado pela Fundação Grupo Boticário. O projeto visa levantar, compilar e analisar um grande volume de dados sobre a distribuição geográfica de grupos taxonômicos chave que compõem a biota marinha do Atlântico Ocidental, com foco na biodiversidade marinha brasileira. Para isso, estão sendo utilizados os dados que são registros de ocorrência georreferenciados, de plataformas globais de biodiversidade, tais como o OBIS e o GBIF, além da base de dados de coleções zoológicas e botânicas fornecidas pelos pesquisadores integrantes do projeto.

A pesquisa tem como foco principal oferecer uma síntese da biodiversidade marinha brasileira. Na fase inicial do projeto estão sendo avaliados os tipos de vieses e lacunas amostrais da biota investigada a partir dos dados adquiridos do OBIS e GBIF (1.748.398 registros), ponto importante para se compreender os padrões em biodiversidade. Além disso, também permitirá direcionar futuros esforços para áreas menos investigadas ou ainda negligenciadas. A próxima fase da pesquisa analisará o conjunto de dados completo, incluindo os registros provenientes das bases de dados fornecidas pelos pesquisadores (136.913 registros), a fim de que sejam estudados os diversos aspectos dos padrões em biodiversidade marinha e, desse modo, contribuir com informação científica de qualidade, servindo de base para tomadas de decisão sobre planejamento espacial marinho e suas unidades de conservação.

O Programa BioGeoMar está alinhado com o ODS 14 “Vida na Água”, um dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, e com a Década da Ciência Oceânica, ambos no escopo das ações globais da UNESCO/ONU. O projeto tem atuação em duas frentes principais que são a pesquisa e a divulgação científica, auxiliando na promoção da cultura oceânica e da ciência cidadã.

O Programa BioGeoMar tem como um de seus objetivos gerar informação científica de qualidade que atendam às necessidades internas do projeto, bem como ser uma fonte de compartilhamento de dados inéditos com as plataformas OBIS Brasil e SiBBr, tornando esse conhecimento acessível a todos. O Programa BioGeoMar também contribui para a ciência e a sociedade por meio da capacitação da equipe, produção de informação de qualidade, transferência de conhecimento e boas práticas.

Para mim é uma grande honra ter sido contemplada com o financiamento da Fundação Grupo Boticário para a execução do Programa BioGeoMar como sua responsável técnica. E é, sem dúvidas, motivo de grande satisfação e realização profissional como bióloga marinha, liderar um projeto desta magnitude, que pretende trazer contribuições efetivas para a ciência e sociedade, reunindo uma equipe executora multidisciplinar de pesquisadores e profissionais com atuações brilhantes em suas áreas.


5. Na sua visão, quais os principais desafios a serem superados relacionados à observação do oceano:

Para que o desafio 7 da Década do Oceano seja alcançado no âmbito regional, será necessário colocar em prática as aspirações da sociedade sobre esta temática, resultantes de um amplo debate participativo, apresentadas pela pesquisadora Ana Carolina Mazzuco, ao final das oficinais sub-regionais para a implementação da Década no Brasil. Portanto, faz-se necessário que mais iniciativas, de diferentes setores da sociedade, se comprometam a tornar seus dados acessíveis e integrados em um sistema de dados; que haja uma governança que assegure o respeito ao coletivo e aos processos participativos, garanta a atribuição de créditos e o reconhecimento dos atores envolvidos no processo, incorporando os saberes tradicionais; e que a sociedade possa fazer uso dessas informações de qualidade para gerar soluções ambientais de acordo com a necessidades nacionais e que visem a saúde e sustentabilidade do oceano.

Fernanda Azevedo é bióloga marinha, zoóloga e especialista em esponjas calcárias.













Esse texto foi coordenado por Alessandra Pfuetzenreuter, membra do grupo de comunicação do GT-Década do Oceano da Liga das Mulheres pelo Oceano.

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