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Na luta contra injustiça climática

Por Mariana Campagnoli


Em março de 2023, foi lançado o sexto Relatório Anual do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (ou IPCC). O IPCC, para quem não sabe, é uma organização científico-política que tem como responsabilidade principal preparar relatórios que dão um panorama global sobre o estado atual das mudanças climáticas. Ele reúne tudo o que sabemos, e o que não sabemos sobre as causas e impactos associados às mudanças climáticas, e tem o importante papel de alertar e orientar os tomadores de decisão sobre possíveis medidas mitigadoras dos seus efeitos. Apesar de ter sido criado em 1988 (!), e atuar desde então, o último relatório do IPCC foi o que causou mais rebuliço. Isso porque o que antes eram previsões para um futuro (não tão) distante, agora são uma realidade global, com episódios trágicos e consequências devastadoras acontecendo ao redor do mundo. 


O aumento de eventos climáticos extremos, como ondas de calor e frio, fortes tempestades, secas, ciclones, tornados e vendavais, são alguns dos resultados do nosso descaso com o planeta. Os efeitos são muitos, e vão de inundações, prejuízos na produção de alimentos, incêndios florestais, deslizamentos de terra, entre outros. O mais recente exemplo, e um dos mais assustadores da história do Brasil, foi o que aconteceu no Rio Grande do Sul em abril deste ano. Milhares de pessoas perderam suas casas e estão alojadas em abrigos improvisados, casas de parentes, ou na rua. Sem contar os, pelo menos, 180 mortos.

 

E adivinhem só? A crise climática não impacta as pessoas igualmente. As tragédias decorrentes da crise climática são um reflexo do descaso do poder público com a população pobre e periférica do Brasil. Essa parcela da população é obrigada a ocupar locais sob o risco de inundações, alagamentos, e deslizamentos de terra, para terem onde morar, e acabam tornando-se mais vulneráveis às catástrofes climáticas. Mais do que uma questão de natureza puramente ambiental, a crise climática é também uma questão política que abarca conceitos como a desigualdade social, a garantia dos direitos humanos e coletivos, e a responsabilidade histórica dos nossos governantes para com a população mais vulnerável.


Nesse contexto está inserida a protagonista do Blog da Liga de julho, Sarah Marques! A Sarah tem local de fala quando o assunto é injustiça climática, termo que se refere justamente aos efeitos desiguais da crise climática sobre as parcelas mais vulneráveis da população. Sarah nasceu, cresceu e criou seus dois filhos na comunidade Caranguejo Tabaiares, à beira do canal que desagua no Rio Capibaribe, na Zona Oeste de Recife (PE). Ela é mãe solo de Rafael e Juliana, gêmeos de 17 anos, filha de Siraquitan e Norma, que se conheceram na comunidade, se casaram, e tiveram ela e seu irmão Socrates. Siraquitan, seu pai, foi uma liderança importante na comunidade e participou na linha de frente da ocupação do território. Graças a sua luta e a de outros moradores, desde 1996 Caranguejo Tabaiares é uma ZEIS (Zona Especial de Interesse Social), denominação dada às porções de território destinadas à moradia digna para a população de baixa renda. Isso significa também que a comunidade deveria ser protegida por lei.


Na prática, a história é outra. Em 2019, a prefeitura emitiu uma ordem de despejo para parte das famílias de Caranguejo Tabaiares. Ou seja, ao invés de proteger e auxiliar no desenvolvimento da comunidade, o poder público queria entregar o lugar para grandes imobiliárias, com a desculpa do “desenvolvimento”. O território onde fica a comunidade é muito disputado. A ideia era enviar essas famílias para um local distante mais de 7 quilômetros das suas casas, onde construíram sua história e de onde tiram seu sustento! No lugar das casas dos moradores realocados, a prefeitura tinha a proposta de construir uma via para carros, além de abrir espaço para construção de prédios. Sofrendo as ameaças da prefeitura, a comunidade viu em Sarah uma possibilidade de ajuda. E apesar de sempre ter dito que não seguiria o exemplo de seu pai (afinal, a luta por direitos nesse cenário não deve ser fácil), a indignação diante da injustiça falou mais forte! 


Assim foi criada a resistência, sob o nome de coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste, uma forma da comunidade entrar no cenário de disputa de territórios e narrativas. Mas não para por aí. Você está se perguntando por que falamos em injustiça climática na introdução deste texto? Além da disputa pelo território, que é seu por direito, os moradores da comunidade também sofrem com alagamentos pelo transbordamento do canal após fortes chuvas. Junto da destruição das casas, a falta de infraestrutura e tratamento de esgoto e água faz com que os alagamentos sejam uma fonte de disseminação de doenças. Segundo Sarah, as chuvas, que deveriam ser uma benção para o povo que já viveu das águas para a pesca, agora são um gerador de medo constante. A situação escancara a desigualdade, o racismo ambiental e a injustiça climática.

Roda de conversa do Coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste

Hoje, o Coletivo Caranguejo Tabaiares está bem articulado. Ele garante que haja espaço para discussões sobre pertencimento e orgulho de serem uma comunidade pesqueira centenária, e faz a mediação de rodas de conversa sobre equidade racial e de gênero, injustiça climática e insegurança alimentar. A comunidade, que outrora sobrevivia da pesca, hoje em dia é dominada por mulheres chefes de família, em sua maioria sobrevivendo como faxineiras, ambulantes e pescadoras. Por isso, muitas das atividades são voltadas para a comunidade feminina de Caranguejo Tabaiares. São essas mulheres que hoje fazem a manutenção da horta comunitária, principal arma contra a política da fome que assola a comunidade. Além disso, participam de oficinas de crochê e feltro, ferramentas essenciais para o empoderamento e empreendedorismo feminino.

1. Vista da horta comunitária do Coletivo 2. Oficina realizada pelo Coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste

O Coletivo foi o primeiro a furar a bolha nas discussões sobre as mudanças climáticas, ingressando no Observatório do Clima como coletivo de base não formalizado. Além disso, participam da Rede por Adaptação Antirracista, e de coletivos a nível estadual, como o GERA (Governança de Enfrentamento ao Racismo Ambiental). Sarah conta que a participação do Coletivo nessas discussões garante que seja transmitido um olhar de dentro da favela, de quem sente na pele toda a estrutura precária e as faltas que tipicamente atingem as pessoas pela cor de pele e gênero. No terreno onde fica a horta, a pracinha e o campinho feitos pelo Coletivo, foi proposta a construção de 288 unidades habitacionais pelo governo municipal, mais preparadas para o enfrentamento das chuvas e alagamentos. No entanto, a quantidade de moradias proposta não atende às necessidades reais das famílias da comunidade. O Coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste segue resistindo na luta pelos direitos básicos para toda a comunidade! Quer fortalecer a luta? Segue a página do Coletivo no Instagram, assista e compartilhe os vídeos do canal do Youtube, dê uma olhada no Brega Protesto criado pelos jovens do @coquevideo e do @grupoadolescer, e compartilhe esse texto.


Conheça a Sarah:

Sarah Marques é cofundadora do coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste, educadora popular, mulher negra, 43 anos, membra da Rede de mulheres negras de PE, da Rede por uma adaptação climática antirracista, conselheira do Centro Brasileiro de Justiça Climática, Observatório do Clima e da Rede Gera (Governança de Enfrentamento ao Racismo Ambiental).



Sobre a autora:

Mariana Campagnoli é bióloga, mestre e doutoranda em Ecologia e Recursos Naturais pela UFSCar, coordenadora, e produtora de conteúdo para a newsletter da Liga das Mulheres pelo Oceano.

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