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Sylvia Earle, uma inspiração

Destacamos o texto publicado originalmente no Agente Natureza, por Adriana Lippi






Abrindo Março, em comemoração ao Dia Internacional das Mulheres, trago um pouco sobre Her Deepness (Vossa Profundeza) Sylvia Earle . Essa Agente Natureza de “apenas” 83 anos continua na ativa e deixa qualquer um de meia idade de queixo caído e mostra que na luta pela conservação pelos oceanos não dá pra descansar e esperar os outros agirem no seu lugar.

Desde nova ela já teve contado com a natureza por morar numa fazenda. Seus pais nunca deixaram de mostrar para ela a importância de cada ser vivo, por mais minúsculo ou estranho que ele possa parecer. Aos 12 anos, quando se mudou para o litoral da Flórida, ela viu um novo mundo se apresentando no quintal de sua casa: o Mar do Golfo do México!

Não teve muito jeito, Earle quis ser cientista. Em 1953 se inscreveu em biologia marinha. Naquela época os equipamentos de mergulho que usamos hoje em dia tinha acabado de ser inventados, com ajuda do Jacques Cousteau. Seu professor havia conseguido dois kits e ela aproveitava para ficar o máximo de tempo possível debaixo d’água. Ela soube que queria fazer isso pelo resto da vida.

Earle se casou em 1957 e teve dois filhos, Elizabeth e Richie, mas o espírito de exploradora não deixava Sylvia. Uma oportunidade de embarcar pra o Oceano Índico por 6 semanas surgiu, só que significaria deixar sua família nesse período (durante os anos 60 não era tão bem aceito que uma mulher com filhos os deixasse para que se marido cuidasse deles). De qualquer forma, Earle embarcou para essa expedição. Era a única mulher num navio com mais 70 homens, imagina o choque da família tradicional! Essa foi uma de suas primeiras expedições em alto-mar. Pouco tempo depois ela foi convidada para mais uma expedição, dessa vez no Pacífico.






Ela passava muito tempo se dedicando a suas explorações e pesquisas acabaram, isso acabou fazendo com que ela e seu marido se separassem.

No seu doutorado ela estudou algas marinhas. Ela coletou diversos espécimes e os analisou. Hoje esses exemplares estão no Smithsonian Museum em Washington.

Em 1966, ela visitou as Ilhas Galápagos. A vida marinha era tão impressionante que havia tantos tubarões quanto abelhas num enxame, mas a caça aos tubarões, também motivada pelo medo que temos deles. (O que não é justificado, pois os tubarões causam pouquíssimos ataques, muitas vezes por que nós estamos em uma área que não deveríamos estar ou por que modificamos tanto o mar que eles acabam indo para onde estamos)

Em 1969, Earle se inscreveu para o projeto Tektite II. O projeto possuía uma base submersa no Caribe onde cientistas ficariam por 2 semanas debaixo d’água. Earle se inscreveu, mas os organizadores do projeto nem pensaram que mulheres teriam interesse em participar. Então resolveram fazer um time só de mulheres para o experimento. O que é ficar mergulhando ou navegando pelos mares quando se pode ficar por dias debaixo d’água?

Talvez poucos saibam, mas nesse projeto participou uma brasileira! A Dra. Renate Schlenz True, nascida em Porto Alegre, estava entre as aquanautas do projeto Tektite II. A Filha da Dra. True, a Dra. Erica Schlenz foi professora do Instituto de Biociências da USP onde atuou com pesquisa em biologia marinha! Bom, mas essa história pode ficar para uma próxima vez, né? (São tantas pessoas incríveis! E Elas podem estar do seu lado)




Depois do projeto Tektite II, as aquanautas ganharam a mídia! Eram jovens mulheres cientistas que mostravam que cientistas e exploradores marinhos não são só homens. Earle foi um modelo para as mulheres cientistas que viriam. Porém, se hoje já não é tão simples ser mulher e ter uma carreira, ela também sofreu com a pressão de ser uma boa mãe, boa esposa, boa cientistas, estar sempre bem arrumada e com um sorriso no rosto. O seu segundo casamento terminou pois a pressão era muito grande e afetou o relacionamento.

Usando um traje especial, ela foi a 1ª mulher a andar no fundo marinho com mais de 300 metros de água sobre sua cabeça, lá ela se deparou com a parte do oceano onde não chega a luz do sol, mas em compensação a vida brilha por si própria. Organismos bioluminescentes fazem o espetáculo nessa zona sem luz solar.




Nessa busca por mares mais profundos ela, encontrou o engenheiro que fez as garras do traje submarino e juntos começaram a pensar em formas de facilitar as “visitas” ao fundo marinho. O amor cresceu e Sylvia se casou pela 3ª vez, e ao invés de filhos eles tiveram submarinos! Pela empresa do casal Earle podia desenhar seus próprios submarinos.

Ela chegou a ser cientista-chefe da NOAA (Agência Nacional Atmosférica e Oceânica, dos EUA), um dos mais importantes órgãos para a ciência marinha no mundo. Earle se mostrou além de uma ótima cientistas, uma ótima administradora pública. Só que a pressão política foi grande, já que setores econômicos preferiam que ela não falasse de forma direta os problemas a serem resolvidos. Sylvia queria fazer mais e percebeu que fora do sistema público poderia contribuir de uma forma que ela ficasse mais satisfeita.




Depois da experiência na NOAA, Earle começou o seu projeto de criar Hope Spots (Pontos de Esperança). Esses pontos seriam lugares destinados a recuperação da biodiversidade marinha, seguindo a lógica das Unidades de Conservação de proteção integral. Ela passou a fazer campanhas para que os governos em todo o mundo criem essas áreas protegidas para que haja esperança para o equilíbrio ecológico marinho.

Nessa época o litoral da Flórida começou a mudar. Muitas construções, poluição, desrespeito à vida selvagem. O desenvolvimento no interior dos Estados Unidos também complicou a vida marinha no Golfo do México, pois os fertilizantes que sobravam da agricultura no interior era levado para os rios, que acabavam por desaguar no Golfo. Com isso se criava um desequilíbrio,fazendo acabar com o oxigênio no mar e acabando com a vida de vários animais.




Em abril 2010, aconteceu o acidente no Golfo do México que vazou litros e litros de petróleo impactando profundamente a região. Se isso corta seu coração. Imagine para Sylvia Earle que passou sua infância mergulhada nele.

Ultimamente, não importa o quão fundo Earle mergulha, ela sempre encontra rastros da humanidade como o lixo.

Você pode conferir muito mais sobre a história da Sylvia Earle no documentário da Netflix Mission Blue: https://www.netflix.com/title/70308278


Texto original: https://espraiada.wordpress.com/2020/01/08/sylvia-earle/

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