• Leandra Gonçalves

Ciclones na Costa Brasileira*

No final de junho um fenômeno chamado ciclone bomba atingiu cerca de 16 cidades na região Sul do Brasil, especificamente nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O ciclone bomba trouxe fortes rajadas de vento, chuvas torrenciais e causou a formação de ondas de até 7 metros de altura. Vários municípios sofreram estragos, além da perda de vidas humanas. Apesar de não ser comum ouvirmos o termo "ciclone" no Brasil, ciclones extratropicais são frequentes na nossa costa - mas não costumam causar tanta destruição sob o continente.

Imagem dos satélites GOES + Meteosat, de 14/09/2016 00:00 GMT. Em destaque, o ciclone extratropical explosivo que afetou o leste da Província de Buenos Aires (Argentina), o sul e sudeste do Uruguai e no extremo sudeste do RS (fonte: INPE CPTEC).


Diversas atividades humanas essenciais, como agricultura, abastecimento de água, pesca, etc... dependem muito das condições do meteorológicas e do clima. Portanto a ocorrência de ciclones impacta nossa vida pois pode alterar as condições de chuva, ventos e agitação do mar, e em casos mais graves causar danos materiais. Os ciclones também interferem na regulação climática agindo como um distribuidor de calor e umidade pelo planeta, diminuindo a diferença de temperatura que há entre o equador e os pólos, e levando umidade para atmosfera.


Os ciclones são fenômenos que acontecem na atmosfera, se espalham por grandes áreas e formam ventos que giram em espiral no sentido ciclônico, ou seja, no sentido horário no Hemisfério Sul e anti-horário no Hemisfério Norte. Quando há uma região com ar mais quente e mais úmido perto da superfície, acontece um abaixamento da pressão atmosférica criando um centro de baixa pressão que leva esse ar quente e úmido para cima. Ao subir, o ar acaba esfriando e o vapor de água se condensa formando as nuvens que vemos nos ciclones formando uma espiral.


Existem três principais classificações de ciclones:


Os ciclones tropicais se formam com a subida de umidade e calor, normalmente vindos do oceano é um dos principais elementos formadores e intensificadores dos ciclones tropicais. Estes são os famosos furacões ou tufões que são raros aqui na nossa região.


Os extratropicais são formados em regiões  em que massas de ar com uma grande diferença de temperatura se encontram. Esse tipo de ciclone tende a criar as frentes frias, que se move em direção ao equador, e quentes, que vão em direção aos pólos. São bem frequentes na costa sul e sudeste do Brasil.

Os subtropicais que tem características combinadas dos ciclones tropicais e extratropicais, devido às características do Oceano Atlântico Sul os ciclones subtropicais que ocorrem na costa brasileira têm mais características de ciclone extratropical do que tropical.


O ciclone bomba, como o que aconteceu em 30 de junho, é caracterizado por um abaixamento de pressão muito rápido. Esse ciclone é do tipo extratropical e recebe esse nome por ser muito intenso, recebendo forte influências das interações oceano-atmosfera. Esse último ciclone trouxe rajadas de vento de até 100 km/h. No começo de julho, a Dra. Carolina Barnez Gramcianinov participou de uma conversa online contando mais sobre o assunto e tirando dúvidas (você pode assistir aqui).


Imagem de satélite de 01/07 do ciclone bomba no Oceano Atlântico. Fonte: NOAA


Os registros globais mostram que a temperatura média da superfície do oceano tem aumentado nos últimos anos. Sendo os ciclones uma das formas que o planeta tem para distribuir o calor, muitos estudos têm apontado que esse fator pode contribuir para a ocorrência de ciclones mais intensos. Por outro lado, o aquecimento não ocorre no mesmo ritmo em todas as regiões e é mais rápido em águas de regiões polares, isso faria com que a diferença de temperatura fosse menor entre as regiões e isso contribuiria para menos ciclones extratropicais. Espera-se que a continuidade dos estudos mostre como essas tendências vão atuar e qual será a consequência para a ocorrência de ciclones.


Outra mudança no padrão dos ciclones na nossa região, devido ao aquecimento do oceano, pode ser a sua faixa de ocorrência. Ao invés de acontecer na região subtropical, os ciclones podem passar a ocorrer em latitudes mais altas (ou seja, mais próximas dos pólos). Caso isso ocorra, é possível no futuro haver problemas de disponibilidade de água, já que os ciclones contribuem com a formação de chuvas para o Brasil.


O aquecimento dos oceanos também pode contribuir para ciclones mais intensos e com desenvolvimento rápido, como o que tivemos no início do mês. No entanto outros fatores podem influenciar a formação de ciclones e são precisos mais estudos científicos e monitoramento para que possamos prever melhor quais serão as mudanças no clima que estão por vir.



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Adriana Lippi (Conselheira da LIGA)











Colaboração de Carolina Barnez Gramcianinov


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